Wednesday, 4 September 2019

Deltan avaliou concorrer ao Senado, deixou em aberto tentar em 2022 e via necessidade de o MPF ‘lançar um candidato por Estado’

Deltan avaliou concorrer ao Senado, deixou em aberto tentar em 2022 e via necessidade de o MPF ‘lançar um candidato por Estado’ Deltan avaliou concorrer ao Senado, deixou em aberto tentar em 2022 e via necessidade de o MPF ‘lançar um candidato por Estado’ Deltan avaliou concorrer ao Senado, deixou em aberto tentar em 2022 e via necessidade de o MPF ‘lançar um candidato por Estado’ Deltan avaliou concorrer ao Senado, deixou em aberto tentar em 2022 e via necessidade de o MPF ‘lançar um candidato por Estado’ Deltan avaliou concorrer ao Senado, deixou em aberto tentar em 2022 e via necessidade de o MPF ‘lançar um candidato por Estado’ Deltan avaliou concorrer ao Senado, deixou em aberto tentar em 2022 e via necessidade de o MPF ‘lançar um candidato por Estado’

O procurador Deltan Dallagnol considerou durante mais de um ano se candidatar ao Senado nas eleições de 2018, revelam mensagens trocadas via Telegram e entregues ao Intercept por uma fonte anônima. Num chat consigo mesmo, que funcionava como espaço de reflexão do procurador, ele chegou a se considerar “provavelmente eleito”. Também avaliou que a mudança que desejava implantar no país dependeria de “o MPF lançar um candidato por Estado” — uma evidente atuação partidária do Ministério Público Federal, proibida pela Constituição.

As mensagens indicam, ainda, que a candidatura não era meramente um plano pessoal de Dallagnol, mas, diante de um “sistema político derrubado”, um desejo de procuradores que ia além da Lava Jato e do Paraná. Em mais de um momento, ele afirma que teria apoio da força-tarefa caso decidisse concorrer, o que indica que isso foi tema de debates internos.

O procurador também dá a entender ter tratado da candidatura com figuras como o jurista Joaquim Falcão, professor da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, ex-presidente da Fundação Roberto Marinho e membro da Academia Brasileira de Letras.

Apesar de levar em conta relatos de conselheiros que viam a política como algo que estava em seu destino, Dallagnol decidiu no final de 2017 permanecer procurador da República, mas não abandonou a ideia de ver seu retrato nas urnas eletrônicas.

“Tenhoapenas 37 anos. A terceira tentação de Jesus no deserto foi um atalho para o reinado. Apesar de em 2022 ter renovação de só 1 vaga e de ser Álvaro Dias, se for para ser, será. Posso traçar plano focado em fazer mudanças e que pode acabar tendo como efeito manter essa porta aberta”, escreveu, em 29 de janeiro de 2018, numa longa mensagem enviada para ele mesmo.

A referência é ao senador paranaense Alvaro Dias, do Podemos, aliado da Lava Jato e poupado pelas investigações da operação, cujo mandato termina em 2022. Dallagnol havia recebido um convite para ser candidato ao Senado naquele mês — justamente pelo partido de Dias — entregue por outro procurador da Lava Jato, Diogo Castor de Mattos. Poucos dias depois, fez a longa ponderação em que pesava os prós e contras de uma aventura política, também em um texto que enviou pelo Telegram para si próprio.

Na reflexão, ele se via dividido entre três opções. A primeira era se candidatar ao Senado, pois julgava que seria “facilmente eleito” e via “circunstâncias apontando possivelmente nessa direção”, entre elas o fato de que “todos na LJ apoiariam a decisão” de apresentar seu nome aos eleitores, em suas próprias palavras.

Ainda assim, o procurador via “risco para a Lava Jato porque muitas pessoas farão uma leitura retrospectiva com uma interpretação de que a atuação desde sempre foi política”. “Pior ainda, pode macular mais do que a Lava Jato, mas o movimento anticorrupção como um todo, que pode parecer politicamente motivado. Por fim, a candidatura pode macular as 10+ como uma plataforma pessoal ou de Deltan para eleição, retirando aura técnica e apartidária”, preocupou-se.

“Há ainda quem leia que uma atuação simbólica como a de Randolfeé inócua (como Josias de Souza), embora eu discorde (com Michael Mohallem). Além disso, ainda que seja algo que está no meu destino, como Joaquim Falcão disse, sair agora seria muito arriscado e não produtivo em comparação com outras opções”, prosseguiu Dallagnol.

Ao Intercept, Josias de Souza e Mohallem confirmaram que tiveram conversas com Dallagnol no teor mencionado pelo procurador em sua reflexão. Falcão não foi encontrado para comentar.

A segunda opção colocada pelo procurador para si mesmo era prosseguir na carreira no Ministério Público Federal. “Lutar pela renovação enquanto procurador: mantém a credibilidade, mas perde a intensidade que seria necessária”, avaliou. “Precisaria me dedicar bastante a isso e me programar. Para aumentar a influência, precisaria muito começar uma iniciativa de grupos de ação cidadã. Dois pilares seriam: grupos de ação cidadã em igrejas e viagens. Tem um risco de CNMP, mas é pagável, cabendo fazer uma pesquisa de campanhas públicas (de órgãos) de voto consciente, para me proteger.”

‘Vc se elege fácil e impede um dos nossos inimigos no Senado: Requiao ou Gleise caem’.

Por fim, a terceira possibilidade analisada por Dallagnol em janeiro de 2018 era deixar a carreira de procurador sem abraçar a política partidária. “Lutar pela renovação enquanto cidadão, pedindo exoneração: esta seria a solução ideal pela perspectiva da credibilidade (não seria político, mas ativista) e de intensidade (“Não vote em Fulano). Perderia um pouco de credibilidade e visibilidade, por deixar a posição pública de coordenador da operação. Não teria riscos de corregedoria. Poderia me dedicar integralmente às 10+”, calculou.

Afinal, por enxergar “riscos concretos à causa anticorrupção”, Dallagnol decidiu ficar no MPF, embora não tenha descartado concorrer em 2022. Até lá as condições para que procuradores possam disputar eleições podem mudar, graças a uma iniciativa da associação de classe que busca garantir a eles o direito de serem candidatos sem abandonarem os cargos no Ministério Público.

12619127-high-1567533271

‘Ou pensamos alguma saída maluca, ou estamos ferrados’, disse Deltan Dallagnol em 2016, em chat com um colega.

Foto: Keiny Andrade/Folhapress

A primeira menção à aventura política de Deltan Dallagnol no Telegram surgiu em meados de dezembro de 2016, numa conversa entre ele e o procurador Vladimir Aras, que trabalhava em Brasília. Aras é próximo de Dallagnol, e foi apoiado por ele como sucessor de Raquel Dodge na PGR.

“Vc tem de pensar no Senado”, escreveu Aras, então chefe da Secretaria de Cooperação Internacional da Procuradoria Geral da República. A resposta de Dallagnol deixou claro que o tema não era novidade nas conversas entre os procuradores. Eram tempos em que a Lava Jato se sentia ameaçada. Dois dias antes, em uma audiência, os advogados de Lula haviam discutido com Sergio Moro, afirmando que ele estava atuando como “acusador principal”, e não como juiz.

Em resposta, a associação de juízes federais publicou nota repudiando o que chamou de estratégia dos advogados de Lula para afastar Moro da Lava Jato. No dia seguinte à publicação da nota — e horas após a conversa entre Aras e Dallagnol –, o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, publicou um comunicado interno dizendo que a Lava Jato “desagrada parte da estrutura de poder”.

Em meio a isso tudo, Aras sugeriu que Dallagnol buscasse uma vaga no Senado, tirando de lá políticos que via como “inimigos” da Lava Jato.


14 de dezembro de 2016 – Chat privado

Vladimir Aras – 10:30:29 – Vc tem de pensar no Senado
Deltan Dallagnol – 12:58:02 – Obrigado pelo incentivo, mas vejo muitos poréns
Aras – 13:09:38 – Vc se elege fácil e impede um dos nossos inimigos no Senado: Requiaoou Gleisecaem
Dallagnol – 13:29:56 – Não resolve o problema. Ajuda se o MPF lançar um candidato por Estado. Seria totalmente diferente e daria trabalho, mas pode ser uma das estratégias para uma saída.
Dallagnol – 13:30:22 – No PRnão precisaria ser eu rs, mas eu apoiaria fortemente essa rede de candidatos
Dallagnol – 13:30:44 – Ou pensamos alguma saída maluca, ou estamos ferrados
Aras – 13:45:12 – Vc e Moro
Aras – 13:45:14 – Ou Carlos


 

Meses depois, no começo de 2017, a possível candidatura se espalhou pelos corredores do Ministério Público Federal. A procuradora Luciana Asper, do Distrito Federal, voluntária da campanha pelas dez medidas, abordou Dallagnol em março daquele ano. Ele desconversou — mas não negou.


1º de março de 2017 – Chat privado

Luciana Asper Valdir – 10:41:42 – Tem alguma chance de vc se candidatar a senador?? Alguns estão me perguntando.
Deltan Dallagnol – 11:49:16 –
Dallagnol – 11:49:22 – Valeu Lu!
Dallagnol – 11:50:43 – Não tem urgência, vou aguardar então, obrigado!
Dallagnol – 11:57:18 – Eu não gostaria, sendo sincero, por uma série de razões. Não é meu perfil, é uma turbulência na vida familiar, ganha menos, tem menos férias, fica tomando pedrada na vitrine num jogo de menitras, correria um risco grande ao me desligar do MPF, tem a questão da LJ etc. Contudo, tem muitas pessoas que respeito muito que estão incentivando, inclusive o pessoal da LJ. Hoje, descogito, e essa é a melhor resposta para quem pergunta, até para não expor o caso. A verdade é que quero em minha vida, em primeiro lugar, servir a Deus, e a Bíblia coloca que a vida do cristão é como o vento, que não sabe para onde vai. Se um dia decidir tentar, é porque entendi que é o melhor modo de servir a Deus e aos homens e por puro espírito público, porque vontade não tenho, Lu. Qual a sua impressão?
Luciana Asper Valdir – 13:48:35 – Entendo vc perfeitamente! Penso exatamente como vc. E confio plenamente que Deus o guiará em todos os caminhos. Vc ouvirá a voz Dele e Ele te colocará onde Ele precisa para continuar no caminho de restauração do que deveria ser está nação que Ele agraciou com tantas bênçãos e foi tão maltratada pelos líderes até hj. Eu confesso que peço todos os dias a Deus para colocar o poder neste país nas mãos dos filhos Dele, verdadeiros cristãos que queiram dar a prosperidade planejada para este Brasil. Falta liderança do bem em todos os cantos. Vc já fez alguma escola no Mpf. Precisamos de um novo congresso sem duvida. Difícil avançarmos com o que vemos por lá. Precisamos de lideranças em todos os cantos! Deixa Deus te guiar que Ele saberá exatamente onde vc deve estar!
Dallagnol – 14:02:12 – Valeu Lu. Quando lembrar, ore por favor pelas decisões que tomamos aqui.
Luciana Asper Valdir – 14:40:25 – Sim. Sempre!


 

Em julho daquele ano, o boato chegou à procuradora Anamara Osório, que enviou via Telegram a seguinte mensagem a Dallagnol: “Delta!!!! Você senador para já!! Vamos falar disso?! O que vc precisa? Hehe”. O chefe da Lava Jato não respondeu.

As conversas indicam que Osório comentou o assunto com a procuradora Thaméa Danelon, à época integrante da Lava Jato em São Paulo.

Com Danelon, de quem é mais próximo, no entanto, Dallagnol foi bem mais aberto.


9 de setembro de 2017 – Chat privado

Thaméa Danelon – 20:08:58 – Oi amigo. Vc vai sair para senador ano q vem?
Danelon – 20:13:06 – Anamara acabou de me falar!
Deltan Dallagnol – 23:34:45 – Não que eu saiba rs
Dallagnol – 23:35:21 – A fonte deve ser o Reinaldo Azevedo rs
Dallagnol – 23:35:39 – Tem muita gente incentivando, mas por enquanto acho que não é o caso


 

A conversa entrou madrugada adentro.


10 de setembro de 2017 – Chat privado

Thaméa Danelon – 01:47:47 – Parece q saiu na globonews
Danelon – 01:47:55 – A Anamara me confirmou Tb.
Danelon – 01:48:05 – Mas se não quiser falar ok
Danelon – 01:48:11 – Mas vc terá sempre meu apoio
Deltan Dallagnol – 10:50:37 – Valeu Tamis. Não descarto, mas não considero completamente. Jamais falaria com partido agora, seria de idiotice total. Exporia a LJ. O que Cristiana Lobo disse é que “corre em Curitiba como certo que…”. Mas é um boato falso. Jamais falei com o Álvaro Dias ou pessoas ligadas a ele sobre esse assunto.


 

Num grupo chamado Trinca de três, que reunia o executivo de planos de saúde Fabio Oliveira e o advogado Hadler Favarin Martines, fundadores do Instituto Mude e frequentadores da mesma igreja batista de Dallagnol em Curitiba, a candidatura também foi discutida.


1º de novembro de 2017 – Grupo Trinca de três

Fabio Oliveira – 13:16:25 – Manos, seguinte. Ontem almocei com o Campagnoloe foi uma conversa muito produtiva. Ele mesmo falou que tanto ele quanto eu e o Deltan estamos vivendo situações familiares/profissional muito parecidas. Em relação a uma possível candidatura dele, minha e tua, ele disse que o ideal seria começar um processo de exposição. Com isso em mente, ele convidou o Mude para falar no evento do dia 23 em Foz. Massa né?
Oliveira – 13:18:36 – Resolvi trocar uma ideia com vocês (tirando a situação da SUPRIMIDO um pouco de foco) pra ver o que vocês acham e também pq fui ver preço de passagem e está na casa dos 2k. O Campagnolo adiantou que o hotel ele consegue para mim mas passagem não. Pensei em ir até de carro, se for o caso.
Oliveira – 13:22:03 – Lembrando que o Deltan também falará no mesmo evento.


 

Eleito presidente da Federação da Indústria do Paraná, a Fiep, com o apoio do antecessor, Rodrigo Rocha Loures, pai do deputado Rodrigo da Rocha Loures, o “homem da mala” de Michel Temer, e filiado ao PRB, atual Republicanos, braço político da Igreja Universal, Edson Campagnolo foi cotado para ser candidato a vice-governador do Paraná em 2018.

‘Que possamos incendiar, juntos, corações, por mudanças’.

Há algumas semanas, um vice-presidente da Fiep, a federação das indústrias do Paraná, o acusou de fazer pagamentos ilegais a si mesmo enquanto comandava a entidade, segundo reportagem do UOL. Ele negou. À época das conversas, porém, a acusação não era pública.

Foi justamente a Hadler Martines, que no Linkedin se identifica como sócio da multinacional de consultoria e auditoria empresarial PwC no Brasil, que Dallagnol comunicou sua decisão de não se candidatar, no fim de 2017.


18 de dezembro de 2017 – Chat privado

Deltan Dallagnol – 22:36:55 – Grande Hadler, após muita reflexão, oração, ouvir muitas pessoas e chegando a um nível de convicção pessoal e fé bastante alto quanto ao que é melhor pensando em termos de movimento anticorrupção, ontem me antecipei ao meu deadline auto-imposto (tinha me colocado um deadline no fim de janeiro) e decidi não vou sair do MPF em 2018. Posso contar mais detalhes quando conversarmos pessoalmente, mas quis adiantar isso em primeira mão para Vc.


 

A resposta viria no dia seguinte.


19 de dezembro de 2017 – Chat privado

Hadler Favarin Martines – 21:14:41 – Fala Delta! Cara, você terá meu apoio independente da decisão que tomar. Concordo que uma candidatura neste momento poderia envolver muitos riscos e no MPF você ainda tem muito a contribuir. Pessoalmente, acho que você é uma das maiores lideranças jovem do Brasil e isso poderá abrir grandes portas no futuro. Quem sabe num futuro próximo um cargo político possa ser interessante. Deus te abençoe! Conte comigo. Abs
Deltan Dallagnol – 22:45:49 – Valeu irmãozinho pelo apoio e incentivo sempre. Sem Vocês seria uma brasa longe do fogo. Que possamos incendiar, juntos, corações, por mudanças. Grande abraço


 

11469767-high-1567534934

‘Mas agradeço muito considerarem meu nome, o que recebo como um reconhecimento da importância da causa anticorrupção’, disse Dallagnol em 2017, quando já tinha descartado a candidatura.

Foto: Jorge Araújo/Folhapress

Joel Malucelli é figura notória no Paraná. Já foi nome de time de futebol, é dono de um banco, o Paraná Banco, de empresas de comunicação — possui as retransmissoras das concorrentes Bandnews FM e da CBN em Curitiba e a principal fatia da TV Band na capital do estado — e de uma empreiteira que leva seu nome e lhe colocou na mira da Lava Jato. Só não foi preso, em setembro de 2018, porque estava na Itália.

Meses antes, porém, em janeiro, Malucelli — também presidente do Podemos no Paraná e suplente do senador Alvaro Dias — abordou o procurador Diogo Castor de Mattos num clube de elite de Curitiba e lhe pediu seu número de celular. Sem conhecer os dilemas íntimos de Deltan Dallagnol ou as decisões que ele já comunicara aos amigos próximos, desejava lhe fazer uma proposta.


16 de janeiro de 2018 – Chat privado

Diogo Castor de Mattos – 20:06:32 – Oi Diogo, você poderia ver com o Dalagnol se ele aceitaria ser candidato ao Senado pelo Podemos?? O convite também partiu do Alvaro Dias! Abr Obr Joel Malucelli Pres do partido
Castor de Mattos –20:06:41 – Posso responder?


 

Dallagnol deu retorno no dia seguinte.


17 de janeiro de 2018 – Chat privado

Deltan Dallagnol – 13:59:25 – Ele te mandou do nada ou Vcs costumam conversar?
Dallagnol – 13:59:40 – Se costumam conversar, responda sim
Dallagnol – 13:59:55 – Diga que falou comigo e que hoje eu não penso em concorrer nas eleições
Dallagnol – 14:00:16 – Mas agradeço muito considerarem meu nome, o que recebo como um reconhecimento da importância da causa anticorrupção
Diogo Castor de Mattos – 14:01:12 – Falei uma vez na vida
Castor de Mattos –14:01:26 – Mas ele joga tênis no clube.. se sentiu amigão


 

Em fevereiro, outro cabo eleitoral de Dallagnol recebeu a ducha de água fria: Vladimir Aras. O procurador sondou o chefe da força-tarefa um dia depois de Dallagnol criticar o Congresso em seu Twitter: “Se cabem buscas e apreensões gerais nas favelas do Rio, cabem também nos gabinetes do Congresso”, escreveu. “Aliás, as evidências existentes colocam suspeitas muito maiores sobre o Congresso, proporcionalmente, do que sobre moradores das favelas, estes inocentes na sua grande maioria”.


21 de fevereiro de 2018 – Chat privado

Vladimir Aras – 23:29:51 – Tá firme na candidatura?
Deltan Dallagnol – 23:47:20 – Oi Vlad, sou candidato hoje apenas a cabo eleitoral seu para PGR!
Aras – 23:48:00 – Hahahaha
Dallagnol – 23:48:06 – Algo que fiz te deu essa impressão? Pergunto porque to indo na direção contrária. Lutar pela causa anticorrupção a partir de onde estou
Aras – 23:48:07 – Resposta de candidato da zorra hahahah
Dallagnol – 23:48:14 – Hahaha
Aras – 23:48:36 – Por causa de suas declarações sobre o congresso e pelo lançamento da campanha. Muita gente especulando isso
Dallagnol – 23:50:40 – Pode ser assertivo em sentido contrário. Na verdade, o meu tt expõe a diferença de tratamento entre poderosos e vulneráveis. É incogitavel no Congresso, mas cogitavel nas favelas, mesmo quando a mesma lógica está presente. Essa mesma diferença vemos na análise pela Justiça de prisões etc. Foi só uma ironia ao sistema de justiça que privilegia uns e prejudica outros. Tinha recém retuitado suas colocações sobre esse assunto, mto pertinentes
Aras – 23:51:00 – Eu vi
Aras – 23:51:07 – Não é minha interpretação
Aras – 23:51:17 – São colegas e pessoas de fora da carreira especulando
Aras – 23:51:30 – Já que abril vem chegando
Dallagnol – 23:52:31 – Nem lembrava disso mais rs. Vc está cogitando?
Dallagnol – 23:52:53 – Vc seria um excelente deputado ou senador pela BA
Dallagnol – 23:53:33 – E se tudo der errado Vc tem muita entrada. Conseguiria lugar no mercado fácil
Aras – 23:56:13 – Não
Aras – 23:56:17 – Já pensei nisso antes
Aras – 23:56:20 – Agora não
Aras – 23:56:31 – Isso é uma possibilidade
Aras – 23:56:40 – Mas não está na hora para mim
Aras – 23:56:52 – Mas nunca descarto no futuro
Dallagnol – 23:59:03 – Eu não descarto também (assim como não descarto varias outras coisas), mas hoje minha saída, a meu ver e salvo alguma mudança radical de cenário, mais prejudicaria a causa anticorrupção do que ajudaria
Dallagnol – 23:59:28 – Pelas pesquisas, estaria eleito, mas tem muito mais coisa importante em jogo


 

O papo continuou, com uma confidência de Dallagnol: a força-tarefa da Lava Jato apoiaria em peso sua candidatura.


22 de fevereiro de 2018 – Chat Privado

Deltan Dallagnol – 00:00:15 – (apesar do apoio da FT a qq que fosse a decisão)
Vladimir Aras – 00:16:13 – No seu lugar eu iria! Já te disse isso. Aliás, vc deve lembrar que te digo isso há muito tempo hahaha
Aras – 00:16:58 – Acho que não haveria prejuízo à causa anticorrupção. Vc ficou maior do que o cargo de procurador
Deltan Dallagnol – 00:24:19 – Valeu pela força, Vlad! Um dia te conto melhor a reflexão pessoalmente.
Aras – 00:26:36 – Ok falou Amigo


 

No início de agosto de 2018, a Associação Nacional dos Procuradores da República, que atua como um sindicato da categoria, foi à justiça brigar pelo direito de que membros do Ministério Público Federal possam se filiar a partidos políticos e disputar eleições sem precisar abrir mão de seus cargos. Atualmente, isso é vedado a eles e a membros do poder Judiciário pela Constituição.

Não há, nas conversas do Telegram, indícios de que a medida da ANPR tenha sido tomada para favorecer uma hipotética candidatura de Deltan Dallagnol — para que pudesse disputar as eleições de 2018, ele teria de deixar o MPF até abril daquele ano.

Ainda assim, a ação foi bastante discutida num dos grupos que os procuradores mantinham no Telegram, chamado BD. Sem conhecer os planos de Dallagnol e da Lava Jato para uma eventual candidatura do chefe da força-tarefa ao Senado, alguns se preocupavam que a ação pudesse causar desgaste à categoria e justificar o discurso de que o ex-presidente Lula é um preso político, ecoado por aliados do petista.


3 de agosto de 2018 – Grupo BD

Janice Ascari – 08:41:07 – A medida valeria também para juízes de todo o país. A ANPR pede ainda que, numa medida cautelar, o STF autorize procuradores e promotores a participarem inclusive das eleições deste ano. Para isso, bastariam se licenciar dos cargos. Pelas regras em vigor, se quiserem se candidatar a cargos eletivos, procuradores e promotores são obrigados a se demitirem. A ADI foi protocolada em nome da ANPR pelo advogados Rodrigo Mudrovitsch e passou a tramitar com o número 5985. No documento, o advogado pede que o STF declare inconstitucional o parágrafo 5º, inciso II, alínea “e” do artigo 128 da Constituição. Pelo trecho do artigo, membros do Ministério Público não podem “exercer atividade político-partidária”. O mesmo tipo de restrição impede candidaturas de magistrados. Mudrovitsch entende ainda que, mesmo antes de examinar o mérito da questão, o STF poderia conceder uma medida cautelar para evitar eventuais prejuízos a procuradores e promotores que queiram participar das eleições em outubro.
Ascari – 08:43:43 – Matéria dO Globo sobre a ação da ANPR Então valeria para Eleições 2018
Rodrigo Tenório – 08:54:27 – Não valerá Janice, por conta doa prazos de desincompatibilizacao. Colegas teriam q ter se afastado bem antes da propositura da acao
Lauro Cardoso – 08:54:56 – Com todo respeito, não achei oportuna a ação nesse momento conturbado. Minha opinião não vale muito, mas pode despertar dúvidas sobre nossos propósitos, ainda mais considerando o atual discurso, injustificado obviamente, de que Lula é um preso político.
Rodrigo Tenório – 08:55:44 – O único desincompatibilizado é Mario Lucio?
Roberto Dassié – 09:07:09 – https://painel.blogfolha.uol.com.br/2018/08/03/ala-do-stf-critica-acao-da-anpr-que-tenta-viabilizar-candidatura-de-procuradores/
José Robalinho Cavalcanti – 09:09:45 – Não valeria porque não pedimos alteração de nada na legislação eleitoral. Quem não se desincompatibilizou não pode se candidatar O jornal está errado
Cavalcanti – 09:10:01 – E eu expliquei isso ontem a n jornalistas
Cavalcanti – 09:12:13 – Como disse Rodrigo tomamos o cuidado de esperar o fim do prazo Lauro. Momento bom nunca haveria. Rs A questão eh polêmica. Em outros momentos seria por outros fatores como o congresso. Ah: o CNPGontem votou por unanimidade apoio público à iniciativa – que só teve aplausos – e deve ir também ao processo. Hoje a CONAMPdeve fazer o mesmo
Cavalcanti – 09:13:42 – Sim
Cavalcanti – 09:13:52 – No mpf. Mas há outros casos
Dassié – 09:14:12 – Robalinho, pq conamp não assinou a inicial?
Cavalcanti – 09:14:16 – Mas não falo com Mario Lúcio já Semanas.
Cavalcanti – 09:16:19 – Por n motivos/ eh mais lenta e o advogado eh nosso e decidimos rapirdo Rs E aliás ela vai discutir hoje o que fazer. Agora. Não vou adiantar. Mas Victor estação breno comigo na reunião do Cnpg e participou do apoio geral
Cavalcanti – 09:16:54 – E me disseram que talvez ele tenha desistido o que deixa zero de pessoas atingidas no mpf rs Não afeta as atuais eleições
Cavalcanti – 09:17:06 – Gente tenho reunião aqui. Ab
Cavalcanti – 09:19:02 – ok! Obrigado
Cavalcanti – 09:21:24 – Não por isso Roberto. E não esqueçam que a tese está em absoluta sintonia com s posição admistrativa de nossa pgr e nosso ex pgr – ambos liberaram Mario Lúcio – e com a manifestação da procuradoria eleitoral no tse
Hélio Telho – 11:14:15 – Que eu saiba, no MPF, é. Não sei nos demais ramos
Cavalcanti – 11:14:24 – Isso
Telho – 11:14:42 – A FsPacertou
Cavalcanti – 11:16:20 – Foi uma das que falou comigo


 

A ação direta de inconstitucionalidade 5985, proposta pela ANPR, está parada desde fevereiro passado no gabinete do ministro Marco Aurélio Mello — por ser um tema regido pela Constituição, cabe ao STF tratar do caso. Em pareceres enviados ao Supremo, o Senado e a Advocacia-Geral da União já disseram ser contra a proposta.

Ainda assim, se o STF eventualmente acatar o que a associação dos procuradores deseja, Dallagnol, Aras e juízes como Marcelo Bretas poderão se colocar como opção ao eleitorado sem o risco de perder os salários e mordomias das carreiras — como o generoso auxílio-moradia pago mesmo a quem já possui casa própria. Nesse caso, o Partido Social Liberal de Jair Bolsonaro provavelmente terá em 2022 o rival que Dallagnol projetou no Telegram: o Partido do MPF. Ou, quem sabe, o Partido da Lava Jato.

Ao Intercept, Michael Mohallem, pesquisador do Programa de Transparência Pública da FGV no Rio, confirmou que conversou com Deltan Dallagnol a respeito de uma eventual candidatura do procurador ao Senado.

“Eu tinha um projeto de pesquisa da Transparência Internacional e ele por vezes participou de algumas reuniões, como colaborador. Me lembro, antes de alguns desses encontros, dele comentar não da intenção de se candidatar, mas numa possibilidade vaga. Objetivamente, sim, em algum momento ele comentou sobre a possibilidade [de ser candidato ao Senado]”, relatou Mohallem.

“Não sei dizer a data, mas foi bem antes das eleições do prazo legal para ele sair da carreira. Eu conheci Deltan naquele período, não é um amigo, um conhecido de longa data. Ele não tinha liberdade para eu aconselhá-lo a sair ou não [candidato]. E não me lembro dele perguntar qual minha opinião [a esse respeito], mas mais sobre impactos a Lava Jato, como eu pesquiso corrupção. Ele não queria impactos negativos para a operação”, ele disse.

“Ele [Dallagnol] não falou em ser candidato, claramente, mas em ter procuradores [concorrendo] na eleição do ano que vinha. Até fui atrás, mas não apareceram. Foi após uma entrevista em vídeo, feita na [sede da] Procuradoria [Geral da República], em Brasília, em outubro de 2017. Após a entrevista, os cinegrafistas estavam desmontando os equipamentos e houve essa rápida conversa”, relembrou o jornalista Josias de Souza.

“Ele disse que às vezes tinha a impressão de que tinha de haver procuradores no Congresso, que a coisa daí talvez caminhasse. Seria um erro capital, eu falei, porque vocês como procuradores realizam um trabalho meritório. Se vão para o Senado, primeiro comprometem esse trabalho e, em segundo lugar, lá gente muito bem intencionada, e citei o exemplo de Ranfolfe [Rodrigues], não tem retaguarda partidária, e tem atuação que não resulta na concretização das boas intenções”, prosseguiu o colunista do UOL.

Também ligado à FGV Rio, Joaquim Falcão está em viagem ao exterior e não foi localizado para falar, informou a assessoria da instituição. O espaço está aberto para a manifestação dele.

Pedimos, novamente, uma entrevista a Dallagnol para que o procurador falasse sobre suas ambições políticas. Ele voltou a se recusar e preferiu responder via assessoria: “O procurador Deltan Dallagnol se lembra de ter feito reflexões sobre esse assunto, mas não vai comentar pensamentos ou cogitações de caráter íntimo. As mensagens são oriundas de crime cibernético e têm sido usadas fora do contexto para acusações falsas”.

Ao contrário do que acusa o procurador, o Intercept lembra que o arquivo da Vaza Jato foi entregue por uma fonte anônima, o que é lícito e legítimo no jornalismo, e que trabalha para que elas sejam reportadas dentro do contexto adequado. Clique aqui para saber mais sobre os critérios editoriais do Intercept que levaram à publicação das mensagens.

“A troca de mensagens expostas se deu no nível pessoal e informal. Tais conjecturas jamais foram levadas ao Conselho ou diretoria do Mude e se tivessem sido levadas não seriam apoiadas. O Mude não tem e nunca teve intenção de apoiar ou lançar candidatos de qualquer matriz ideológica”, disseram, em nota, Patricia Alves Fehrmann e Gisele Jansen, respectivamente diretora-executiva e vice-presidente do Instituto Mude.

Correção: 3 de setembro, 22h40

Uma versão anterior dessa reportagem dizia que Deltan Dallaganol via a política como “algo que está no meu destino”. A frase, no entanto, era atribuída pelo procurador a Joaquim Falcão. O texto foi corrigido.

The post Deltan avaliou concorrer ao Senado, deixou em aberto tentar em 2022 e via necessidade de o MPF ‘lançar um candidato por Estado’ appeared first on The Intercept.

Tuesday, 3 September 2019

Britain’s ‘Brexit Election’ Won’t Consider What Comes After

Britain has many specialties: queues, talking about the weather, the perfect cup of tea. It might be about to add another—public votes that don’t solve any of the country’s problems.

In five years, Britain has held four of these: general elections in 2015 and 2017, the Scottish independence referendum of 2014, and the European Union referendum two years later. Now, as Parliament returns from its summer break, another election seems imminent. Outside Downing Street yesterday, Prime Minister Boris Johnson stressed that he did not “want” a general election. The implication, however, was that one might be needed to resolve the parliamentary deadlock. Less than two months remain before Britain is scheduled to leave the EU on October 31, and lawmakers have repeatedly failed to endorse a withdrawal deal. An election would mean that either Johnson gains a mandate for his preferred exit, or his government is kicked out of office and someone else takes over the negotiations.

Put aside for the moment the possibility that an election could deliver a hung Parliament. (That is a realistic option: The prime minister leads in the polls, but research shows that voters feel more attached to how they voted in the 2016 Brexit referendum than to traditional party divides, making British politics incredibly volatile and unpredictable.)

Even if the election did deliver a majority, there is another, bigger problem. Any vote held before October 31 is likely to be fought on a narrow, procedural question: Should Britain leave the EU on that date, whether it has a withdrawal deal or not? British election campaigns are fought in a matter of weeks, and there is simply not enough time, or political oxygen, to scrutinize the main parties’ non-Brexit-related plans for the country. Yet the result could see the winner installed in Downing Street for a full five-year term.

Every election is a crossroads, a chance for the country to decide its future. Yet for the past three years, hardly any attention has been paid to the very different visions the Conservatives and Labour, the main opposition, have for Britain. The parties are much further apart than they were even in the aftermath of the financial crisis, when both agreed that state spending needed to be curbed and welfare benefits should be reduced. Since then, Labour has elected a strongly left-wing leader, with a foreign policy sharply distinct from that of his predecessors: Much less friendly to the United States, Saudi Arabia, and Israel, and more sympathetic to Iran, Russia, and Venezuela.

As for the Conservatives, their ideological gravity is now—where, exactly? For a small but driven section of the party, Brexit is an opportunity to remake the British economy. The usual shorthand is the Singapore model: low corporation taxes, disempowered trade unions, low regulation, reduced welfare benefits, and a large, but temporary, migrant workforce.

Johnson’s key lieutenant, Dominic Cummings, has a different set of priorities. He favors tax cuts concentrated on the lower-paid; greater investment in public services; a more punitive attitude toward crime, with longer prison sentences; and a move to a points-based immigration system. These are popular pledges, but tax cuts and higher state spending would be extremely expensive.

To which faction does the prime minister belong? It is hard to tell. His cabinet is a hodgepodge of libertarian free-marketeers and more community-minded advocates of blue-collar conservativism. Johnson was a pro-immigration social liberal when mayor of London, but was the face of what critics saw as a nativist campaign for Brexit. “With Boris, what people would call pragmatism in Theresa May or David Cameron is a bit more opportunism,” says Ryan Shorthouse of the center-right think tank Bright Blue, referring to Johnson’s two immediate predecessors. His government offers little ideological consistency, combining those who Shorthouse says have a “let the free market rip” attitude with more centrist politicians. For every cabinet member who wants to declare war on red tape, there’s another arguing for tougher regulation of the environment and animal welfare, causes that are popular with the young voters the party has had trouble attracting.

Trying to discern which of these tendencies would triumph after an election is almost impossible. Leaving the EU might in any case force the government’s hand: Britain will then be a competitor of the bloc, rather than part of it. If the country cannot offer companies access to the single market and frictionless European trade and staffing, then perhaps it will be forced to undercut the rest of the EU on wages, corporation tax, and workers’ rights.

Then there’s Labour, which claims to be offering a slightly souped-up version of European social democracy, with higher taxes and well-funded public services. Yet the program already outlined by Shadow Chancellor John McDonnell is more radical than that—if not quite as extreme as the party’s critics depict.

Sunday’s Financial Times has taken McDonnell’s economic program seriously: He does not hide the fact that he plans an assault on capital by offering renters the chance to buy their homes at a discount; higher taxes on landlords; and a £300 billion, or $365 billion, transfer of shares from large corporations to their employees. “There is no historic precedent for this,” Dan Neidle, a partner at the law firm Clifford Chance, which drew up the figures, told the FT. “We are in completely uncharted territory.” Neidle predicted lawsuits from the affected companies and countries such as China, and potential complaints to the World Trade Organization. Labour has already confirmed that it would seek to nationalize energy companies by buying them for less than the market rate; it also plans to renationalize the postal service and railways.

It has been decades since Labour has had a program for government as left-wing as the one proposed by McDonnell—and leaving the EU would give him greater freedom to carry it out were his party to enter government. Yet if Johnson sides with the right of his cabinet, Britain is headed decisively in a libertarian direction.

In either scenario, an election that is ostensibly about the date Britain leaves the EU will be taken as a mandate for something far greater in scope. But how much discussion can there be about Britain’s future options during a six-week election campaign in the shadow of a ticking clock? And if radical reforms do follow, will the British public really feel that they have agreed to them when they received so little debate beforehand?

This is the oddness of British politics right now. The country is headed for an election that will be all about Brexit—and very little about what might come next.

Sunday, 1 September 2019

20 dias caçando médicos do SUS no bairro paulistano em que se morre mais cedo

20 dias caçando médicos do SUS no bairro paulistano em que se morre mais cedo

Tâmara Pereira estava exausta. Na sala de espera do posto de saúde Jardim Vitória, em Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo, ela aguardava atendimento médico para seu filho mais novo, Pedro Henrique, de três anos. “Eu não entendo até hoje por que tiraram eles, sabia?”, ela me disse, referindo-se aos cubanos do programa Mais Médicos que deixaram o local no fim do ano passado depois das declarações nada amigáveis do então recém-eleito Jair Bolsonaro.

Em Cidade Tiradentes, 80% da população depende exclusivamente do SUS para cuidar da saúde. De acordo com os dados do Mapa da Desigualdade de 2018, o distrito é onde, em média, se morre mais cedo em São Paulo. Enquanto em bairros ricos como o Jardim Paulista os moradores no geral chegam aos 81 anos, quem vive em Tiradentes morre aos 58, em média. O número também é distante da média geral de vida da capital paulista, de 70 anos.

A violência e a falta de atendimento médico para doenças graves se misturam entre as principais causas da baixa expectativa de vida em Tiradentes.

Para entender como é cuidar da saúde no pior bairro de São Paulo, nós acompanhamos por 25 dias a rotina de Tâmara – uma mãe solo de três filhos, que precisa cuidar também dos pais, todos dependentes do SUS. Na maior cidade do Brasil, conseguir um médico ainda é um sacrifício.

Cidade Tiradentes é um dos distritos mais populosos da zona leste da capital, com cerca de 230 mil habitantes, uma população equivalente ao município de São Carlos, no interior paulista. Fica a 35 km de distância do centro e abriga o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina, com cerca de 40 mil unidades. A “viagem” até a Avenida Paulista, por exemplo, leva cerca de duas horas de transporte público.

Do alto de um morro, avistei o horizonte imerso em predinhos da Cohab, como são chamadas pelos moradores as construções baixas e sem elevador, de até 50m². O número cada vez maior de supermercados, farmácias e lojas de roupas e acessórios nas ruas principais dão ares de grande centro ao local. Durante semana, o bairro esvazia. Parte de quem mora em Cidade Tiradentes segue para o centro da capital para trabalhar, lotando os pontos de ônibus. O distrito ostenta a menor taxa de emprego formal em São Paulo.

Horizonte do maior complexo habitacional da América Latina, com cerca de 40 mil unidades.

Horizonte do maior complexo habitacional da América Latina, com cerca de 40 mil unidades.

Foto: Vinícius Cordeiro/The Intercept Brasil

Cidade Tiradentes já contou com 13 médicos do Mais Médicos, todos cubanos. Hoje, apenas duas profissionais do programa, que são brasileiras, atuam em todo distrito – nenhuma na UBS Jardim Vitória, unidade de referência de Tâmara, que tem dois médicos que não são do programa.

A única maneira de entrar na UBS Jardim Vitória é por uma porta estreita em que mal há espaço para um cadeirante passar, muito menos alguém que precise ser amparado por outras pessoas para entrar na unidade de saúde. O posto fica em uma rua de terra, cortada por um rastro de esgoto assim como boa parte das ruas da Vila Yolanda, subdistrito de Cidade Tiradentes. Ali, segundo dados da prefeitura, 100% da população depende do SUS.

A um custo de quase R$ 209 mil por mês, o posto e seus 48 funcionários – apenas dois são médicos – são responsáveis por atender 9,5 mil pessoas, entre elas Tâmara e sua família. Foi ali que ela descobriu a pneumonia do filho mais novo, Pedro, então com nove meses de idade, rapidamente encaminhado para um hospital pela médica cubana Lesbia Eloina Rodriguez Baez. O número de usuários da UBS, porém, pode ser ainda maior. A prefeitura só contabiliza o atendimento dos moradores cadastrados, excluindo quem vive em áreas sem CEP e que também usa o serviço. Em todo o distrito, entre atendimento básico, emergencial e especializado, cada médico é responsável por 2,1 mil pessoas, se dividir o número total de habitantes pelo de médicos – mais de cinco vezes mais pessoas por médico do que recomenda o Pacto Nacional pela Saúde.

Em 2012, o índice de mortalidade infantil em Cidade Tiradentes era o mais alto da cidade de São Paulo, com 17,2 mortes a cada mil crianças com até um ano de idade. A chegada dos médicos cubanos, em 2013, melhorou a situação. O número caiu 23%, para 13,2, em apenas três anos de atuação dos cubanos, me disse Marta Pozzani, supervisora de Saúde no distrito entre 2013 e 2016. No entanto, o número voltou a crescer nos últimos anos. O boletim mais atualizado, de 2018, mostrou que o índice subiu 10%, para 14,6 mortes a cada mil crianças.

Da esquerda para a direita, Kawe, Pedro e Kawan posam para a foto na laje de casa. No meio, Tâmara, "mãe e pai" das crianças desde que o pai saiu de casa quando o caçula era recém-nascido.

Da esquerda para a direita, Kawe, Pedro e Kawan posam para a foto na laje de casa. No meio, Tâmara, ‘mãe e pai’ das crianças desde que o pai saiu de casa quando o caçula era recém-nascido.

Foto: Vinícius Cordeiro/The Intercept Brasil

Três filhos e um câncer

Tâmara, 30 anos, se mudou para Cidade Tiradentes quando tinha oito anos. Contratada em janeiro como atendente de uma loja de roupas em Santana, bairro de classe média da zona norte de São Paulo, ela ainda não está acostumada com o trem lotado que encontra pelas manhãs para ir ao serviço. Seu filho mais velho, de 15 anos, não gosta da ideia da mãe trabalhar longe de casa. Dos seus três filhos, ele é quem toma o lugar de “mãe e pai” quando Tâmara não está. Não faz isso por opção, mas porque os irmãos mais novos, de 13 e 3 anos, não têm com quem ficar. O pai das crianças saiu de casa quando o caçula era recém-nascido e nunca mais voltou.

Tâmara engravidou de Pedro Henrique, seu filho mais novo, em 2014, enquanto fazia um tratamento de um câncer de mama no Instituto Brasileiro de Controle do Câncer. Desde então, o cotidiano da família mudou, e ela precisou interromper seu tratamento para se dedicar ao cuidado da saúde do filho. Sua última mamografia, como acompanhamento depois de retirar o nódulo de uma das mamas, foi feita há quase um ano, em agosto de 2018.

Embora conviva com inflamações recorrentes no local da cirurgia, ainda hoje, não conseguiu ver o resultado do exame e espera uma vaga com um especialista. “Os médicos clínicos nem sequer me examinam”, conta, depois de ser informada que sua UBS de referência, a Jardim Vitória, não possui mastologista.

Pedro nasceu em julho de 2015 e, nove meses depois, voltou ao Hospital Municipal Cidade Tiradentes, o único do bairro, para sua primeira internação. “Se não fosse a doutora Lesbia, eu não saberia que meu filho tem problemas no pulmão”, me disse Tâmara. O bebê passou 12 dias internado. Foi a médica cubana também que diagnosticou a segunda pneumonia de Pedro, quando ele tinha 1 ano e 6 meses de vida. O menino passou mais 17 dias internado.

Por conta de algumas crises de bronquite, de uma obstrução nasal e das duas pneumonias, Pedro iniciou um acompanhamento com uma pneumologista, brasileira, na UBS São Carlos, em Guaianases, também na zona leste de São Paulo, a uma hora de ônibus de distância de sua casa. A doutora havia sido indicada pela cubana.

 

20 DE MAIO DE 2019. Estação José Bonifácio, Linha 11-Coral da CPTM. Encontro Tâmara às 8h30. Ela segurava uma guia para consulta médica com um especialista e duas receitas vencidas de medicamentos.

A maioria dos remédios que Tâmara compra para seus filhos precisa de uma prescrição médica atualizada mês a mês. Com a irregularidade na permanência de profissionais na UBS Jardim Vitória, conta ela, principalmente depois da saída dos cubanos, renovar as receitas é praticamente impossível.

As duas vagas antes ocupadas por Baez e seu marido Yunio Suarez Hernandez, também cubano, na UBS Jardim Vitória, foram repostas por contratações de médicos brasileiros de uma organização terceirizada pela prefeitura que gerencia as 12 UBSs e o hospital municipal da região. A diferença entre os dois modelos é que os médicos terceirizados não têm vínculos com os pacientes e a rotatividade é alta, principalmente em locais periféricos, como Cidade Tiradentes. Em um dia, a Unidade Básica de Saúde de Tâmara perdeu metade dos médicos. Um dos dois terceirizados pela prefeitura pediu demissão no dia 20 de maio, algumas semanas após a unidade ter sido assaltada, me contou o gerente da UBS. Ele trabalhava no local havia cerca de seis meses.

Outra estratégia para repor as vagas ocupadas pelos cubanos é a contratação de médicos brasileiros inscritos no Mais Médicos. Porém, diferente dos cubanos, o principal anseio da maioria dos doutores brasileiros inscritos no programa é saber quando vão sair dele.

Os cubanos atuavam nas Equipes da Estratégia Saúde da Família, responsáveis pelo atendimento preventivo domiciliar e em postos de saúde. Em 2013, um quarto das equipes não tinham médicos – eram formadas apenas por enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde. Em 2016, com o programa Mais Médicos, esse número caiu para 3,3%, segundo um estudo de 2017.

A prefeitura me disse, por e-mail, que o “atendimento na rede de saúde do município não foi comprometido após a saída desses médicos, já que o número de profissionais cubanos era pequeno diante da estrutura total da pasta”. A secretaria diz ter assegurado a continuidade do atendimento “com medidas administrativas”, como remanejamento de profissionais, plantões extras e “contratações via parceiros”.

Tâmara já perdeu as contas de quantas vezes faltou no novo trabalho para cuidar da saúde dos filhos.

Quem precisa de médico em Cidade Tiradentes costuma demorar até 72 dias para conseguir uma consulta. No resto da cidade, o prazo médio é 45 dias. Se for preciso um especialista, a demora é ainda mais longa. A solução de Tâmara é comprar os medicamentos com a receita vencida na farmácia de um amigo. Conhecido no bairro, o dono da farmácia vende os medicamentos sem receita porque sabe que muitos clientes não conseguem atendimento no SUS para renovar a prescrição ou não podem sair de casa por causa da saúde debilitada, como é o caso da mãe de Tâmara.

Luciene Pereira, de 55 anos, é hipertensa e, por conta de um problema nos joelhos, passa parte do dia sentada na cadeira do bar que administra na garagem de casa. Caminhar até a farmácia pela rua de terra parece uma missão impossível. Os buracos e a lama que se formam com a água do esgoto a céu aberto em frente ao seu portão tornam o caminho inviável para a dona do bar.

Os remédios para combater as doenças respiratórias de Pedro e a pressão alta de Kawan, o mais velho de 15 anos, consomem boa parte dos R$ 1,4 mil do salário de Tâmara. A receita do Propranolol de Kawan, que está assinada com a data do dia cinco de setembro de 2017, é a que mais lhe preocupa por conta da validade.

Tâmara segura o remédio anti-hipertensivo do filho mais velho. Kawan tem que tomar o medicamento todos os dias pelas manhãs.

Tâmara segura o remédio anti-hipertensivo do filho mais velho. Kawan tem que tomar o medicamento todos os dias pelas manhãs.

Foto: Vinícius Cordeiro/The Intercept Brasil

Os trens passam, mas não conseguimos entrar. Os vagões estavam tão abarrotados que não cabia mais ninguém. Ainda na plataforma, Tâmara me conta que Pedro recebeu alta da pneumologista, após vários meses de tratamento. Fico empolgado com a notícia e pergunto se o papel que ela segura é o atestado médico. Tâmara se aborrece e diz, erguendo o encaminhamento: “Tive que esperar quatro meses para abrir esse papel”, reclama. “Mas de que adianta?”

O papel, datado do dia 14 de janeiro e assinado por um médico otorrinolaringologista, atesta que Pedro tem 80% da vias nasais obstruídas e precisa de uma cirurgia. Ela sabe que precisa aguardar uma consulta com um cirurgião para ter seu filho encaminhado para a cirurgia, o que pode significar mais uma saga.

“Estou até vendo, vou ter que faltar mais dias no trabalho. Minha gerente vai me matar”, desabafou. Ela já perdeu as contas de quantas vezes faltou no novo trabalho para cuidar da saúde dos filhos. Só no mês de maio foram três.

Decidimos embarcar no terceiro trem, mesmo lotado.

 

21 DE MAIO DE 2019. Pedro queimou de febre durante toda madrugada de segunda para terça-feira, me conta Tâmara por WhatsApp. Apesar da situação do filho, ela resolveu ir ao trabalho, com medo de ser despedida. Ela suspeitava que o menino estivesse com infecção de urina e já havia combinado com sua chefe de faltar na sexta-feira para levá-lo ao médico. “A respiração dele já estava ofegante por causa da virada do tempo. Sempre que faz frio é assim”, me disse. “Mas a febre me pegou desprevenida.”

Sua casa, sem acabamento na parte de fora, construída em uma encosta, foi reformada ao longo das décadas, adaptando-se às necessidades dos filhos, principalmente de Pedro. Faz algum tempo que Tâmara decidiu erguer um muro em cima da laje para cobrir a casa com telhas. A ideia era evitar as infiltrações que mofam as paredes, piorando a saúde da criança. Mas falta dinheiro para terminar a obra. Por enquanto, ela tenta comprar um travesseiro especial, de cerca de R$ 80, indicado pela médica pneumologista para o filho mais novo conseguir dormir.

 

22 DE MAIO DE 2019. No dia anterior, seu pai, Raimundo Pereira, de 57 anos, passou mal no trem voltando para casa, e Tâmara seguiu com ele para o pronto-socorro. Desde que Tâmara começou o trabalho como atendente, eles voltam para casa juntos. Raimundo também trabalha em Santana, como marceneiro. Ele mora na mesma rua que a filha e busca diariamente às 5h30 a marmita preparada por ela na noite anterior, quando chega do serviço. Na volta do serviço, espera a filha por uma hora na estação Luz.

Raimundo nunca havia se preocupado com a saúde. Ultimamente, porém, se mostrou diferente. Antes de passar mal, com forte dor no peito, ele já pretendia pagar um médico no Doutor Consulta – rede popular de consultas médicas particulares – já que não consegue fazer os exames preventivos no sistema público, na UBS Jardim Vitória.

No Doutor Consulta, o valor de uma única consulta consumiria cerca de 10% do orçamento mensal de R$ 1,5 mil que recebe como marceneiro, o que dificulta a ida ao médico. É difícil gastar parte do salário com problemas de saúde que não são urgentes. Com uma rotina que começa às 5h e termina por volta das 21h, Raimundo não vai ao médico para um consulta rotineira há mais de um ano. “A única coisa que perguntam na UBS Jardim Vitória é se ele é hipertenso, diabético… Ele não é, já passou no particular, mas precisa de um acompanhamento médico”, diz Tâmara.

 

23 DE MAIO DE 2019. Seguindo a recomendação do médico que atendeu seu pai, Tâmara retornou ao pronto-socorro logo cedo. Eram 6h e já havia fila. Pelo jeito, ela não foi a única a voltar para buscar exames. O temor de um infarto deu lugar ao alívio: “o doutor informou que ele só teve um pico de estresse e recomendou repouso”, me contou.

O Pronto Atendimento Glória, que concentra a maioria dos serviços de Cidade Tiradentes, atende em média 17 mil pessoas por mês – quase o dobro recomendado pelo Ministério do Planejamento. Das mais de três vezes em que fui ao bairro e passei em frente ao local, pude ver, pela janela do ônibus, as enormes filas de pessoas buscando atendimento.

Falta de saneamento básico no bairro de Tâmara impacta na saúde da família. Os buracos e o barro na rua de sua casa dificultam a passagem de carros e moradores.

Falta de saneamento básico no bairro de Tâmara impacta na saúde da família. Os buracos e o barro na rua de sua casa dificultam a passagem de carros e moradores.

24 DE MAIO DE 2019. Tâmara me manda uma mensagem de voz dizendo que houve um apagão e, por isso, ela se atrasou para o trabalho. “Estourou alguma coisa no poste aqui no Jardim Vitória, e a vila amanheceu sem luz”, relatou. “Não comemos nem pão no café da manhã, porque os mercadinhos não tinham energia”. Na última vez em que isso aconteceu, lembra ela, demoraram três dias para consertar o problema.

Passava das 8h30, e Tâmara havia acabado de sair de casa. Nesse horário, normalmente, ela já estaria no trem. Pergunto se hoje não seria o dia de faltar no trabalho para ir com o Pedro ao hospital. Ela me diz que ele apresentou sinais de melhora durante a semana e que ela havia combinado de apenas sair mais cedo do serviço para tirar a segunda via dos documentos que Kawan, o mais velho, perdeu.

Faltar “sem ser muito preciso”, como ela mesma diz, significa sobrecarregar outras atendentes e perder dias preciosos com o cuidado da saúde da família quando necessário. “O Pedro já está tomando os remédios contínuos dele, se Deus quiser, não vou precisar levar ele [ao médico] não”, diz.

26 DE MAIO DE 2019. Tâmara passaou seu único dia de folga no Hospital Municipal Cidade Tiradentes para conseguir atendimento emergencial para Kawe, o filho do meio, de 13 anos, que fez um corte profundo no pé.

Descalço, Kawe jogava uma partida de futebol com seus amigos, em um campo de terra próximo a sua casa. Em um chute torto de um companheiro de time, a bola foi parar no meio do “mato”, e Kawe foi buscá-la. Sem conseguir ver por onde andava, o menino cortou o pé em algo. “O médico falou que por três milímetros não cortou o tendão dele”, me contou Tâmara.

Em Cidade Tiradentes, além da imensidão de casas da Cohab, existem muitas áreas formadas por favelas e pelos loteamentos habitacionais clandestinos instalados em áreas privadas, a Cidade Informal, como denomina a prefeitura.

Tâmara me manda uma mensagem de voz: ‘vou trabalhar muito preocupada com eles aqui em casa’.

São nesses espaços, em campos improvisados, que os jovens da região costumam ter algum tipo de lazer, já que não têm o mesmo acesso a espaços culturais como no centro de São Paulo. Apesar de ter uma população maior que a do município catarinense Criciúma, Cidade Tiradentes só tem três espaços culturais públicos. O índice de desigualdade nesse quesito é mais de 100 vezes pior do que o subdistrito da Sé, no centro da cidade, segundo o Mapa da Desigualdade, que mapeou o número de centros culturais, espaços e casas de cultura da região e o comparou com o número total da população do distrito para chegar ao resultado.

Mesmo sentindo fortes dores no peito, Tâmara diz que está preparando o almoço do dia seguinte e a marmita do seu pai. Logo em seguida, me manda uma mensagem de voz: “Vou trabalhar muito preocupada com eles aqui em casa. O Pedro com problemas para respirar, o Kawa esquecendo de tomar o remédio da pressão e, agora, o Kawe sem poder andar. Ainda bem que minha família mora aqui ao lado”, disse Tâmara. “Mesmo assim meu coração fica apertado, preciso marcar médico para eles”.

Mas não há muito tempo para se organizar nesta noite. Tâmara acordará às 5h30 no dia seguinte para trabalhar e retomar a rotina da semana.

 

11 DE JUNHO DE 2019. É quase 22h30 quando meu celular apitou três vezes. Me surpreendi ao ver que as mensagens são de Tâmara. Já faz alguns dias que a gente não conversa.

“Boa noite”, “eles me mandaram embora”, “não trabalho mais na empresa”, diziam as mensagens em uma sequência dolorosa.

Uma semana antes, ela havia saído mais cedo do trabalho por conta de uma febre de 40ºC de Pedro. Dois dias depois, mais uma ausência – desta vez, para retirar os pontos do corte no pé de Kawe. “Eu sou a mãe e pai deles. Então, se precisar sair mais cedo do trabalho, se precisar faltar, eu vou faltar. Eles são meus filhos”, me disse Tâmara, em áudio.

Naquele dia, mais cedo, seu chefe havia lhe chamado em sua sala, ao final do expediente, e disse que ela poderia ficar em casa cuidando dos seus filhos, pois não fazia mais parte da empresa.

Colaboração: Camila da Silva.

The post 20 dias caçando médicos do SUS no bairro paulistano em que se morre mais cedo appeared first on The Intercept.

The Joys of a Quiet Paris

August in Paris is over, and I miss it already. The deadest month, the most quiet, the month when Parisians leave on their endless holidays and the city empties out like a resort in the off season, only less melancholy. Traffic thins; shops close, sometimes for the entire month; restaurants shut; there are seats to be found on the metro; and in the evening, stragglers (not everyone can afford to go away) emerge from their stuffy, un-air-conditioned apartments and gather along the banks of the Seine.

In August, this uptight city unbuttons a few more buttons.

One warm evening, I walked a good stretch of riverfront promenade, and the scene was joyous. Families out for a walk; kids climbing on climbing walls; couples embracing; friends at picnic tables eating from Tupperware; tourists taking pictures of wounded Notre-Dame, without her spire, encased in scaffolding; South Asian men selling bottles of beer and chilled rosé from backpacks—“Du vin, madame?”—people of all ages and colors dancing with abandon to Michael Jackson’s Thriller on a makeshift dance floor near the Pont Neuf, like wild teenagers letting it loose while their parents are out of town.

The bakery near my apartment was closed for the first three weeks of August. Three weeks! For a while, when I looked out my apartment windows in the evenings, nary a light was on in the building across the street. Even Google knows it is August in Paris. Gmail recently offered some canned responses to an invitation I’d received. Its options: “I’ll be there!” “I’ll come!” and “I’m on vacation!” I managed to get a table, without waiting, at one of the best restaurants in Paris.

The French government shuts down in August, too. It is not uncommon for high-level officials with sensitive dossiers in important ministries to take three or four weeks off, without checking email. The entire country operates on what’s basically an academic schedule. In May and June, people start making appointments for after the rentrée—that is, September. Employees have seven weeks of paid holiday time (albeit with lower pay than their counterparts elsewhere).

Parisians and tourists jump through Paris's Trocadero Fountains.
(Tristan Reynaud / SIPA / AP)

And then there is the news in August. This summer, France Inter, the country’s equivalent of National Public Radio, ran a daily five-minute series just before 8 a.m. The topic was “A Summer With Pascal,” on the life and work of Blaise Pascal—his views on God, the body, justice, free will, his method, his writing style, his reception during the Enlightenment. Vive la France. One of the most famous radio and TV hosts here, Léa Salamé, ran a summer series on France Inter called “Powerful Women,” for which she interviewed some of the most powerful women in France—writers, politicians, a rabbi. That powerful women are seen as material for a series that airs only during the summer, when listenership is down, may say something about the state of feminism in France today.

Newsrooms empty out, and so newspapers prepare long summer serials in installments. These are often the most engrossing pieces in all of French journalism. Le Monde’s series included “On the Planet of the Ultra-Rich,” (in New York, Silicon Valley, private schools), as well as one on the decline of the French Socialist Party. This began with “François Hollande: The Original Sin,” about the former French president, and went through the rise of President Emmanuel Macron, who split from the Socialists to form his own party. Le Monde also ran series on DNA evidence and six interviews with feminists (Emma Thompson; the Egyptian author and activist Mona Eltahawy; Inna Shevchenko, a co-founder of the Ukrainian collective Femen.) Good profiles, but again part of the women-as-special-section-in-August phenomenon.

This summer, the conservative daily Le Figaro’s series included “Intellectuals Forced Into Exile” and—this is classic Figaro—“Descendants,” which began with Laura Keynes, whom it described as “great-granddaughter of Darwin and a practicing Catholic.” A few years ago, Le Figaro, the preferred newspaper of France’s conservative upper-class, had an 11-part series following in the footsteps of Napoleon, and another in the footsteps of George Orwell, from Catalonia to Wigan Pier to Burma.

One drowsy August evening, I turned on French TV to find an in-depth candid-camera investigation into the many and various ways a person can get ripped off in Paris—cabs at the airport who scammed unsuspecting Canadians; a gang of girls who stole a tourist’s cellphone by the Seine; a restaurant that claimed its food was homemade when it wasn’t. “C’est quoi, ça?” (“What exactly is this?”) the reporter leading the investigation asked, with disdain that bordered on horror, as the hidden camera showed her lifting a leaden lump of pale melted cheese out of what was supposed to be homemade French onion soup.

Of all the cities I’ve lived in, August is best in Paris. August barely registers in New York, where it seems to be a point of pride never to take time off. August in Rome is funereal and oppressively hot, tolerable only if you’re falling in love. But Paris is alive enough to be energizing—museums and movie theaters are open, there are outdoor concerts, it’s not entirely shut down—and it’s quiet enough to concentrate.

I will miss all this: the calm, the summer series, the lost tourists who ask me for directions. The rentrée is in full swing. The regular hosts are back on morning radio talking about Macron’s legislative agenda. School starts again soon. In the evenings, there are lights on in the building across the street, and neighbors visible through the open windows—a couple smoking on their balcony while their tween daughter vogues in front of her mirror one room over. The traffic is back. The honking of horns. On the street, women have deep suntans and some men haven’t yet traded their striped espadrilles for lace-ups. At least for a few more days.