Tuesday, 24 September 2019

Um discurso do Brasil na ONU que não será lido por Bolsonaro

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Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

A Assembleia Geral das Nações Unidas é um dos principais órgãos da ONU. Tradicionalmente, cabe ao Brasil abrir a sua reunião anual. É um momento importante, em que o presidente reafirma os compromissos do país nas relações internacionais. Frente às drásticas mudanças que ocorrem na política externa brasileira, decidimos escrever o discurso que acreditamos que o Brasil deveria apresentar aos chefes de Estado reunidos em Nova York.

É um discurso que projeta um ideal de nação e justiça. Guarda o tom dos discursos diplomáticos, com referência a órgãos e tratados que existem, com propostas fictícias, criadas por nós, mas que acreditamos serem viáveis e necessárias. Somos duas especialistas em relações internacionais, com pesquisas sobre paz, segurança e políticas públicas.

O discurso está baseado em pilares centrais defendidos pela diplomacia brasileira desde o retorno à democracia. Entre eles, destacam-se a promoção da integração regional e o acolhimento de migrantes e refugiados, além da defesa do meio ambiente, dos direitos humanos, da resolução pacíficas de conflitos e do multilateralismo, em contraste com o atual foco no nacionalismo, que enxerga a soberania nacional e a cooperação multilateral como mutuamente excludentes. Também reforçamos em nosso discurso a histórica demanda do Brasil em favor da reforma das instituições que compõem a governança global, incluindo o Conselho de Segurança da ONU e o Banco Mundial, de forma a dar maior voz aos países em desenvolvimento.

Também traz iniciativas inovadoras que ainda não existem, mas também retoma compromissos anunciados na última década, como o fortalecimento da Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia, a criação de um fundo soberano voltado à educação e à pesquisa, e o lançamento de um Livro Branco de Política Externa formulado com grande participação da sociedade civil, promessa anunciada em 2014, mas jamais concretizada pelo Ministério das Relações Exteriores. O discurso termina anunciando o lançamento do Museu da Escravidão, no Rio de Janeiro, um projeto que idealizamos a ser criado em cooperação com outros países de língua portuguesa.

É um lembrete de que um dia poderemos ter uma política externa proativa e criativa, coerente com os valores democráticos e com o objetivo de melhorar nossas vidas.

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Bom dia a todas e todos. É uma honra estar aqui e dar continuidade à longa tradição que o Brasil mantém de abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas.

Senhoras e senhores, enfrentamos crises sem precedentes no mundo. Novas tecnologias, transformações geopolíticas e o impacto das mudanças climáticas são apenas três dos desafios complexos que nos trazem novas incertezas.

O Brasil tem longa trajetória de contribuir para o multilateralismo, tradição que perpassa governos democráticos e militares, seja por meio de esforços globais como a Liga das Nações e as Nações Unidas; ou por meio das organizações regionais, como a Organização dos Estados Americanos e o Mercosul.

O multilateralismo e o respeito pelo direito internacional são fundamentais para que possamos enfrentar e prevenir os problemas cada vez mais urgentes do mundo atual. Rejeitamos oto Sustentável e o reconhecimento do seu território marítimo através da Convenção da ONU sobre o Direito dos discursos nacionalistas e populistas que se aproveitam das novas incertezas para esvaziar as instituições da governança global e para enfraquecer a democracia e os direitos humanos.

O passado nos mostra que problemas globais não podem ser resolvidos por um só país. Ao invés de trazerem prosperidade, o unilateralismo e o isolacionismo provocam instabilidade e, até mesmo, guerras.

O Brasil tem colhido os frutos concretos de sua tradição multilateralista, dentre os quais os avanços logrados por meio da Agenda 2030 de Desenvolvimen Mar.

Portanto, acreditamos que, longe de serem mutuamente excludentes, o multilateralismo e a soberania nacional reforçam-se mutuamente.

Defendemos a multipolaridade cooperativa, por meio da qual poderemos construir uma ordem internacional mais equânime e democrática, com maior representatividade dos países em desenvolvimento. Essa ordem deve ser pautada pelo multilateralismo e pelo direito internacional, e não por rivalidades geopolíticas ou ambições hegemônicas.

A política externa brasileira retoma o seu viés universalista, fundamentado na ideia de que o diálogo é necessário especialmente quando discordamos. Por isso o Brasil continua, através da Agência Brasileira de Cooperação, fortalecendo os laços de cooperação Sul-Sul. Aprofundamos as trocas não apenas através de agrupamentos tais como o IBAS e o BRICS, mas também bilateralmente com parceiros na América Latina, na África e na Ásia com base nos princípios de amizade, horizontalidade e reciprocidade. Para tal, o Brasil assume o compromisso de expandir seu orçamento para atividades de cooperação internacional, sempre considerando a responsabilidade fiscal e o impacto social e ambiental de tais projetos.

Os países latino-americanos são nossos vizinhos e temos todos a ganhar com uma maior integração regional. Reconhecemos nossa dívida histórica para com nossos antepassados africanos e nos orgulhamos das nossas raízes. Os laços entre o Brasil e o Oriente Médio são históricos e continuaremos expandindo as trocas. Acompanhamos com grande interesse a iniciativa do Cinturão e Rota e buscaremos aprofundar nossos intercâmbios com parceiros asiáticos.

Também devemos trabalhar juntos pela inovação. Além de desenvolver tecnologias de ponta em áreas tais como aviação e energia nuclear para fins pacíficos, o Brasil também é referência em tecnologias sociais no combate à fome e à pobreza. Na nossa cooperação solidária, iremos privilegiar os esforços em saúde pública, compartilhando nossas experiências no desenvolvimento de um sistema único de saúde de acesso universal e resguardado pela Constituição federal, buscando também aprender com nossos parceiros.

Sociedade civil e setor privado têm seu papel a desempenhar nas políticas públicas e na cooperação – mas isso não quer dizer que os estados devem abdicar da sua responsabilidade perante os desafios atuais.

As instituições de Bretton Woods e outros componentes da governança global econômica devem atentar para a pauta comercial que, na ausência de um arcabouço global efetivo, se afunda em um bilateralismo sem rumo. Esse panorama produz trocas que são altamente assimétricas, prejudicando os países em desenvolvimento.

Igualmente preocupante é a tendência de financeirização da economia global. O fenômeno vem exacerbando as profundas desigualdades socioeconômicas já existentes, alimentando uma super elite com poder político desproporcional e fomentando novas tensões sociais. Precisamos inovar nos esforços de regulamentação do setor financeiro e no combate à precarização do trabalho.

O Brasil segue comprometido com a reforma do Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio, de forma a torná-las mais eficazes. E isso requer maior representatividade da ordem mundial atual, na qual países em desenvolvimento contribuem significativamente para o crescimento mundial, mas carecem de poder decisório. Enxergamos essas mudanças como urgentes, sobretudo diante de ameaças protecionistas e guerras comerciais que se acirram em meio à falta de respeito pelas normas internacionais.

Os arranjos regionais também têm um papel fundamental na promoção da multipolaridade cooperativa. A América Latina não pode se tornar um cemitério de organizações regionais. Além de propor a reforma da OEA de forma a fortalecer seu papel na prevenção e resolução de conflitos, o Brasil irá lançar novas iniciativas para reforçar a Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia, que enxergamos como um espaço cada vez mais estratégico para a região.

Reafirmar a soberania brasileira sobre a nossa parte da Amazônia e rechaçar a ideia da sua internacionalização não exclui reconhecer sua importância global. O Brasil permanece à disposição para cooperar com parceiros em busca da preservação da floresta amazônica, da proteção dos povos indígenas e tradicionais, e do desenvolvimento sustentável e inclusivo de toda a Amazônia.

Senhoras e senhores, o Antropoceno demanda soluções cooperativas e fundamentadas em pesquisas e evidências. Face à emergência climática que o mundo enfrenta, o Brasil reitera seus compromissos para com o Acordo de Paris. A comunidade científica no Brasil trabalha em estreita colaboração com contrapartidas em outros países no desenvolvimento de mecanismos de monitoramento da floresta, desde satellites até o uso da inteligência artificial. Nos orgulhamos dos nossos centros de excelência como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe.

A valorização da ciência, do conhecimento e da educação é primordial na promoção do desenvolvimento sustentável e inclusivo. É por isso que garantiremos a realização do nosso Censo Demográfico em seu formato original. Além disso, criaremos um fundo soberano cujos recursos serão dedicados exclusivamente ao fortalecimento da educação pública, incluídas a pesquisa e a inovação. O Fundo Paulo Freire contará com ampla participação social na elaboração de um modelo de gestão inovador, além de estar aberto à cooperação com empresas e países parceiros.

O Brasil lidera esforços climáticos internacionais desde que sediou a Rio 92 e a Rio+20. Mantendo a tradição, iremos sediar a próxima Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Tais esforços irão fortalecer a governança climática inovadora que estamos desenvolvendo no Brasil em parceria com governos estaduais e municipais, atores da sociedade civil e entidades do setor privado.

Reafirmar a soberania brasileira sobre a nossa parte da Amazônia e rechaçar a ideia da sua internacionalização não exclui reconhecer sua importância global.

Além disso, o Brasil convida a comunidade internacional a apoiar e participar da Conferência Internacional da Juventude e do Clima que iremos sediar no ano que vem em Teresina, no Piauí.

A cooperação internacional é essencial para o avanço do desenvolvimento sustentável e inclusivo. Iremos fortalecer nossos laços de cooperação para repensar modelos de infraestrutura de grande porte, identificando e promovendo boas práticas na redução dos impactos socioambientais do deslocamento das populações locais. Essas e outras iniciativas de mitigação e adaptação demandam não apenas maior engajamento de países em desenvolvimento, mas também maiores compromissos por parte dos países que deram saltos históricos em desenvolvimento causando fortes impactos ambientais. Nesse sentido, enxergamos no diálogo de alto nível que estabelecemos em abril com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico um canal importante de troca de ideias, respeitando nossas diferenças.

Para que possamos redobrar os esforços de cooperação, solicitei à nossa Ministra das Relações Exteriores, que convoque uma reunião extraordinária da Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia.

Nesse encontro, iremos lançar novos esforços colaborativos de proteção das florestas e dos seus habitantes, promovendo uma abordagem sustentável em toda a Bacia do Amazonas.

enhoras e senhores. o Brasil tem longa tradição de prevenção e resolução pacífica dos conflitos, dentro e fora da sua região. Nosso país tem orgulho de estar entre os membros fundadores da Zona de Paz e de Cooperação do Atlântico Sul, livre de armas nucleares, que constitui uma das nossas maiores credenciais como ator na paz e segurança internacional.

O Brasil lamenta o desgaste do regime internacional de desarmamento, com o recente colapso do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, e se compromete a ratificar e a promover a universalização do novo Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares.

No mesmo espírito, anunciamos uma moratória nacional na produção de munições de fragmentação e irá aderir à Convenção de Oslo sobre a proibição desses artefatos, que provocam danos desproporcionais à população civil.

O Brasil opõe-se a intervenções militares salvo em caso de aprovação pelo Conselho de Segurança e, mesmo assim, defendemos o uso responsável da força. Casos de instabilidade aguda requerem uma abordagem pacífica priorizando os meios políticos e diplomáticos. O Brasil rejeita o uso da força para lidar com a crise venezuelana, posto que recorrer às armas poderia gerar instabilidade na Venezuela e em toda a região por décadas.

Entendemos, ainda, que sanções econômicas têm impacto imediato e desproporcional sobre a população civil. Portanto, o Brasil opõe-se a sanções unilaterais, enxergando-as como medidas de último recurso que devem ser aprovadas no âmbito das Nações Unidas. O Brasil acredita que a crise apenas poderá ser resolvida pelos próprios venezuelanos, sem ditames externos. Iremos colaborar com os esforços imparciais de mediação entre o governo e a oposição, como Grupo Internacional de Contato, o Mecanismo de Montevidéu, e os Diálogos de Oslo.

O Brasil apoia o acordo de paz assinado entre o governo da Colômbia e as FARC e permanece à disposição para apoiar as partes para que retrocessos sejam evitados na implementação do acordo.

Estamos prontos a desempenhar atividades de mediação no Oriente Médio, caso sejamos convidados pelas parte.

Também reiteramos nosso apoio à resolução pacífica dos conflitos no Oriente Médio. Mais especificamente, assinalamos a necessidade de preservar o acordo sobre o programa nuclear iraniano. Reafirmamos o compromisso do Brasil com a solução de dois Estados para Palestina e Israel, com base nas linhas de 1967 e nos parâmetros do direito internacional, inclusive em relação ao status de Jerusalém. Estamos prontos a desempenhar atividades de mediação no Oriente Médio, caso sejamos convidados pelas partes.

Acreditamos que os mecanismos de paz e segurança das Nações Unidas podem e devem ser modernizados e aprimorados. Sob a liderança da nossa ministra da Defesa o Brasil retoma seu papel junto às operações de paz da ONU. Setecentos dos nossos militares, policiais e de civis serão enviados para a Missão das Nações Unidas na República Centro-Africana. No início do ano, lançamos uma campanha que busca aumentar a participação de mulheres brasileiras em todos os componentes, inclusive em postos de liderança.

No plano político, também continuaremos contribuindo para os esforços de resolução pacífica dos conflitos. É por isso que propomos a criação de uma Rede de Mediadoras Latinoamericanas, que reunirá conhecimentos valiosos adquiridos em contextos de conflitos e violência. Essa iniciativa reforça nosso compromisso com a agenda sobre Mulheres, Paz e Segurança.

Ressaltamos que a eficácia da ONU em paz e segurança requer maior representatividade. Em que pese a fadiga com o tema de reforma, insistimos que, sem repensarmos o Conselho de Segurança, a arquitetura de paz e segurança permanecerá distorcida e pouco eficaz. É por isso que lançamos, mês passado, uma nova proposta, sob o título O Conselho dos Capazes. Vislumbramos um órgão cujos membros seriam eleitos a cada cinco anos com base em avanços demonstráveis, durante o período prévio, em pautas tais como: implementação e promoção das Agendas de Mulheres, Paz e Segurança e de Juventude, Paz e Segurança; contribuições concretas para a prevenção de conflitos, incluídos os esforços de desarmamento e de não proliferação de armas nucleares; e iniciativas em mediação de conflitos. Critérios de representatividade também seriam adotados de forma a assegurar a presença dentre os membros do conselho de países de diferentes regiões geográficas e níveis de renda.

Na mesma linha, o Brasil também defende a ampliação dos trabalhos e responsabilidades da Comissão de Consolidação da Paz, mais apta a liderar esforços preventivos e de reconstrução em contextos pós-conflito.

Finalmente, o Brasil continua contribuindo para os debates sobre as normas da intervenção, razão pela qual iremos relançar, com novo vigor, o princípio de Responsabilidade ao Proteger. Iremos também organizar novo debate, no âmbito desta Assembleia, sobre o tema “o Imperativo de Prevenir”.

Senhoras e senhores, como tantos outros países aqui representados, o Brasil foi constituído através da migração, seja por meio da vinda de trabalhadores e comerciantes, seja devido ao tráfico de escravos. Seria incoerente com a nossa própria identidade fechar as portas àqueles que atravessam nossas fronteiras.

A crise de refugiados na Venezuela já tornou-se a segunda maior do mundo e apresenta desafios sem precedentes para os países da região. O Brasil já recebeu cerca de 168 mil migrantes e refugiados da Venezuela e continuará recebendo mais. Diante da situação de graves e generalizadas violações de direitos humanos na Venezuela, nos comprometemos a processar as solicitações de refúgio de venezuelanos de maneira prima facie, ou seja, em grupo.

Assim, o Brasil abrirá mão do prolongado processo de análise individualizada, garantindo proteção internacional aos venezuelanos de maneira coletiva e agilizada.

Também expandiremos nosso programa de interiorização de venezuelanos que chegam através de nossa fronteira terrestre, de forma a promover sua efetiva integração à sociedade brasileira.

Consideramos que a migração é um direito humano e rechaçamos a visão de que migrantes constituem ameaças à segurança nacional. Problemas de segurança podem surgir quando nossas instituições e marcos legais não estão devidamente adequados a receber e garantir os direitos de pessoas migrantes e refugiadas.

A nova Agência Brasileira de Migração está encarregada de coordenar esforços voltados para os solicitantes de refúgio e de residência temporária. Ela também lidera o primeiro mapeamento em nível nacional dos deslocados internos, tendo em mente que milhões de brasileiros já se viram forçados a deixarem seus lares devido a fatores tais como desastres, projetos de infraestrutura e violência.

A agência irá coordenar esforços com o Ministério das Relações Exteriores para aprofundar a cooperação regional em torno da migração, notadamente por meio de uma iniciativa que pretendemos criar, a Coalizão Sul-Norte em defesa dos Pactos Globais da ONU para migração e sobre refugiados.

Temos a honra de anunciar a retomada do programa brasileiro de reassentamento, que terá como medida inicial o reassentamento assistido de 500 refugiados advindos do Oriente Médio, da África e da América Latina. O Brasil também se compromete a fazer contribuições humanitárias anuais e previsíveis para os refugiados palestinos, através da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina. Além disso, ampliaremos nossa contribuição para o Alto Comissariado da ONU para Refugiados e para a Organização Internacional de Migração.

Continuaremos trabalhando com essas agências em busca da plena integração local de migrantes, refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil.

Sem a defesa dos direitos humanos não há democracia.

Senhoras e senhores, não podemos permitir que a agenda dos direitos humanos se esvazie. Sem a defesa dos direitos humanos não há democracia. O Brasil é um país diverso onde as mulheres, indígenas, portadores de necessidades especiais e grupos LGBTI devem poder efetivamente exercer sua plena cidadania, com todas as garantias de um estado laico.

Assassinatos como o da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, nos lembram o quão vulneráveis estãos os defensores de direitos humanos, mas também o quão urgentes são essas pautas. Temos avançado no plano interno e internacional para garantir as liberdades individuais e a proteção de defensores, jornalistas e lideranças sociais.

Como parte dos esforços visando à inauguração do Conselho Nacional de Política Externa, lançamos em fevereiro, com ampla participação social, nosso primeiro Livro Branco de Política Externa. O livro marca o início da Política Externa Inclusiva, que incorpora não apenas a igualdade de gênero mas também o anti-racismo e o combate à homofobia, à perseguição étnico-religiosa e à discriminação em geral, promovendo uma sociedade mais igualitária.

Nossa política externa inclusiva tem como âncora o princípio de angatu, que na língua tupi se refere ao bem-estar, bom espírito. Seguindo o angatu, o Brasil busca promover o desenvolvimento sustentável e inclusivo que irá assegurar a felicidade e a dignidade da população. Isso requer atenção não apenas às questões econômicas mas também o respeito ao meio ambiente, à cultura e à diversidade.

Mas não basta falar de princípios; é necessário agir. Junto à ONU, iremos redobrar os esforços na defesa dos direitos sexuais e reprodutivos, assim como promover novas iniciativas para que a privacidade digital seja reconhecida como um direito humano.

Nas Américas, lançaremos em breve uma campanha de fortalecimento do Sistema Interamericano de Direitos Humanos, de forma agilizar a implementação de decisões e recomendações proferidas em seu âmbito.

Em que pese nosso histórico de resolução de conflitos, o Brasil, como muitos outros países, é palco de níveis elevados de violência. Os crimes violentos afetam desproporcionalmente os negros e as mulheres. Tais crimes estão, em boa parte, relacionados ao combate ineficaz ao crime organizado e ao tráfico de drogas através da repressão hostil e da militarização da segurança pública. Vamos priorizar uma abordagem preventiva e que retire o consumo de drogas da esfera criminal, tornando o sistema carcerário mais eficaz e reduzindo a violência. Também iremos trabalhar com parceiros internacionais na desarticulação de redes criminosas transnacionais, que também alimentam a
corrupção e lavagem de dinheiro, através do Diálogo Multi-setorial contra o Crime Organizado Transnacional e sempre respeitando o Estado democrático de direito. Não acreditamos que os fins justificam os meios utilizados para combater crimes.

Senhoras e senhores, sem refletirmos sobre quem somos e para onde queremos ir, não encontraremos as soluções. Com isso, gostaria de compartilhar que, através de esforços da nossa Cooperação Solidária, no final deste ano daremos início à construção do Museu da Escravidão, em colaboração com outros Estados do Atlântico. Além da sua sede no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, o museu irá contar com uma Exposição Navegante, a bordo do antigo Aeródromo São Paulo, cedido para este fim pelo governo federal, que irá se alternar entre os principais portos do Atlântico.

Longe de ser apenas um lembrete dos abusos cometidos no nosso passado, essa nova instituição será um marco no pensar sobre o futuro. A melhor solução para a intolerância, o ódio e a desesperança é pensarmos juntos sobre o mundo que queremos construir através do angatu e da multipolaridade cooperativa.

Muito obrigada.

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Sunday, 22 September 2019

What Would Jeremy Corbyn Mean for Britain’s Foreign Policy?

BRIGHTON, England—Things are not all right here in Britain. Boris Johnson’s ruling Conservatives have lost their majority, and with it their ability to govern; Parliament has been suspended; and the country is weeks away from crashing out of the European Union, its closest neighbor and largest trading partner, without a withdrawal deal.

In normal times, this moment would present a prime opportunity for a united and organized opposition to step in. But these are not normal times, and there is no such opposition party waiting in the wings. Instead, there is the Labour Party—and its leader, Jeremy Corbyn.

“Our movement is strong, our movement is vibrant,” Corbyn told hundreds of party faithful at an opening rally of Labour’s annual conference in this English coastal town over the weekend. The Labour leader pledged to lead the party into an election “against a prime minister who wants to take us over the cliff out of the EU and into the arms of Donald Trump.”

“I’m not having any of that,” he said amidst roaring cheers. “You’re not having any of that.”

If ever an opposition was needed in Britain, it’s now. Still, voters remain largely wary of the Labour leader, and what his elevation to the country’s highest political office could mean for its future. Corbyn is the most left-wing leader the Labour Party has seen in decades, and his plans for the country, if elected, are equally as radical: The 70-year-old has pledged to oversee a revolution of the British economy, complete with the nationalization of public services such as intercity rail, water, and mail delivery, as well as the reversal of a decade of painful public-spending cuts imposed following the 2008 financial crisis. The Financial Times concluded that this program would cost hundreds of billions of pounds, and constitute “a fundamental redistribution of income and power.”

But for all the attention that has been given to what a Corbyn government would mean for the future of Britain’s economy, relatively little has been paid to the potentially seismic impact it would have on Britain’s role in the world. Corbyn’s foreign-policy views are unlike those held by any other Labour leader, and are in many ways outside the mainstream of his own party, let alone the country. While any major economic plan would require Parliament’s consent, as prime minister, he would have significant sway over the country’s foreign agenda at a time when Britain’s global standing post-Brexit is still mired in doubt.


Corbyn ascended to the Labour leadership in 2015, after more than 30 years on the backbenches of British politics. More a political activist than a career politician, he spent much of that time establishing himself firmly within the far left of the Labour Party, advocating on issues ranging from nuclear disarmament (which he supports) to unilateral military intervention (which he has long opposed). Considered among the party’s most rebellious members, Corbyn has voted against the Labour Party in Parliament more than 500 times.

His transition from the fringes of the party to the very top came as a surprise to many, including Corbyn himself, and heralded a significant leftward shift in what had otherwise been a center-left party. Corbyn was boosted by thousands of new (mostly young) voters attracted to his message against public-spending cuts, as well as his decades-long tenure as an anti-war activist, including his opposition to Britain joining the U.S.-led invasion of Iraq. It also marked a rejection of the more centrist “Blairite” politics ushered in by former Prime Minister and Labour leader Tony Blair, with whom Corbyn has long been at odds.

A younger Jeremy Corbyn sits alongside a woman who was a victim of Augusto Pinochet's regime.
Jeremy Corbyn, pictured in 1998, sits alongside a woman who was a victim of Chilean dictator Augusto Pinochet’s government. (Ian Hodgson / Reuters)

It was precisely because of Corbyn’s far-left credentials that many presumed his leadership bid didn’t stand a chance. Commentators dismissed him as a “maverick” candidate of the “loony left,” while Conservatives cheered his candidacy as a way of ensuring that Labour would be consigned to “electoral oblivion.” Even those within Labour who helped get Corbyn onto the ballot admitted they had no intention of voting for him, with several lawmakers saying they only lent him their support to broaden the leadership debate. In the end, Corbyn secured the backing of nearly 60 percent of party members, but only 10 percent of Labour parliamentarians.

[Read: Why Jeremy Corbyn isn’t fighting Brexit]

Since then, Corbyn has transformed Labour into a party in his own image: one that is unwaveringly anti-austerity, antiestablishment, anti-war, and crucially, stronger in number. Labour membership swelled from 200,000 members at the time of Corbyn’s election to upwards of half a million—nearly four times that of the Conservatives—in just two years. Though the surge in members didn’t prove enough to secure Labour’s electoral victory when former Prime Minister Theresa May called a snap election in 2017, the party was able to deny the Tories the outright majority May had been hoping for.

“Whatever the final result,” Corbyn declared at the time, “our positive campaign has changed politics for the better.”

Things haven’t exactly been smooth sailing for Labour since the election, though. Over the past year, the party has suffered a string of resignations by its more centrist lawmakers and the loss of tens of thousands of card-carrying Labour members over its handling of anti-Semitism allegations within its ranks, as well as the party’s ambiguous position on Brexit. Though the Labour Party formally backed the campaign to remain in the EU during the 2016 referendum, Corbyn’s own efforts to campaign in favor of EU membership were regarded as considerably lackluster. After all, the Labour leader had a long history of skepticism toward the EU, which is viewed by many on the far left as a capitalist club. Indeed, Corbyn voted against Britain’s entry to the European Economic Community (the precursor to the modern bloc) in 1975, and opposed the Maastricht and Lisbon treaties in 1993 and 2008, respectively, which established the EU’s further powers.

“His instincts are much more euroskeptic than that of even [his] close allies,” Malcolm Chalmers, the deputy director general at the Royal United Services Institute, a London-based think tank, and a former senior special adviser to previous Labour Foreign Secretaries Jack Straw and Margaret Beckett, told me.

Corbyn’s differences with party colleagues highlight the gulf within Labour over its Brexit policy—between those like the leader, who view the EU with suspicion, and those who see the bloc as guaranteeing some measure of basic workers’ rights and regulatory standards. The party was finally able to coalesce around a position this month, pledging to hold a confirmatory vote on any Brexit deal (including, were it able to form a government, one of its own), with an option to remain in the EU on the ballot. But there is less consensus on which side the Labour Party would ultimately support. While several of Corbyn’s colleagues have already come out in favor of backing remain regardless, Corbyn himself has signaled he will stay neutral.


The first time I saw Corbyn in person, I very nearly didn’t. It was the eve of Labour’s 2018 party conference, in Liverpool, and a group of approximately 50 people had gathered outside the conference venue in Royal Albert Dock to hold a vigil for those affected by a worsening humanitarian crisis in Yemen. Standing in the center of them all was Corbyn, who—flanked by Labour’s foreign-affairs spokesperson, Emily Thornberry, and the comedian and political activist Eddie Izzard—decried the Conservative government’s continued arms sales to Saudi Arabia, which has led a years-long bombardment of Yemen. (Such arms sales have since been ruled unlawful by the Court of Appeal in London.)

“If it were a Labour government … we would bring about an end to that conflict,” Corbyn told the crowd, which enthusiastically gathered around the Labour leader for a photo. With no security, no police, and minimal press, the gathering was evocative of classic Corbyn: the lifelong anti-war activist, campaigner, and trade-union organizer.

And in many ways, through years of challenges to his leadership, accusations of anti-Semitism, and criticism of his Brexit policy (or lack therof), that is the Corbyn who remains in place to this day. Those who know the Labour leader say that many of his views, particularly on issues of foreign policy, haven’t fundamentally changed since he joined Parliament, let alone since he became Labour leader.

“When I think back, I changed my position on some issues when I learned more about them or as the circumstances changed,” Mike Gapes, a former Labour lawmaker who entered Parliament with Corbyn in 1983, told me. “Most of Corbyn’s foreign-policy positions are identical today to what he always had: A pro-Castro, pro-Chávez, anti-imperialist view of the world.”

[Read: The implosion of Jeremy Corbyn]

Gapes was among the group of Labour parliamentarians who resigned en masse in February to protest the party’s lack of leadership on Brexit, and its failure to tackle its anti-Semitism crisis, as part of a largely stillborn attempt to form an independent political grouping. But Gapes, who previously represented Labour in Parliament’s foreign-affairs committee, said he had another reason, too: opposition to Corbyn’s foreign policy.

“The general tenor of British foreign policy since the 1945 Labour government has been to establish the Western alliance, to support NATO, to be very much regarding the United States as our main ally,” Gapes said, adding that a Corbyn government would ensure those principles were “directly challenged.”

Much of what a Prime Minister Corbyn’s foreign policy might look like is based on views that he has supported throughout his time in Parliament. An early sponsor of the Stop the War Coalition, a British campaign group founded following the 9/11 terrorist attacks, Corbyn was a vocal opponent of the U.S.-led invasions of Afghanistan and Iraq, as well as subsequent military interventions in Libya and Syria. He has voiced support for a two-state solution to the Israeli-Palestinian conflict, including a right of return for all Palestinian refugees. He has also expressed sympathy for the reunification of the Republic of Ireland and Northern Ireland (a particularly controversial position for a would-be prime minister, because Northern Ireland remains a part of the United Kingdom).

Supporters of Jeremy Corbyn hold up a placard at a music festival.
Supporters of Jeremy Corbyn cheer as he delivers a speech at the Glastonbury Festival in 2017. (Dylan Martinez / Reuters)

Tom Kibasi, the director of the Institute for Public Policy Research, a progressive London-based think tank, told me many of Corbyn’s foreign-policy views are in line with mainstream opinion. “Most of the public don’t think bombing children in Yemen is a particularly good thing … Most of the public don’t think oppressing the rights of Palestinians is a good thing,” he said. “Labour’s foreign policy is controversial to the chattering media class, but to normal, ordinary people, it’s common sense.”

But some of the Labour leader’s views have gotten him into trouble in the past. Corbyn has referred to the militant groups Hamas and Hezbollah as “friends” (comments he has since disowned) and likened the actions of the Israeli government to that of the Nazis (comments that he also later condemned). He has called for the disbandment of NATO, dubbing the international alliance a “military Frankenstein,” and opposed foreign intervention in Venezuela, Syria, and Ukraine, leading critics to suggest he has lent support to oppressive regimes in Caracas, Damascus, and Moscow. More recently, Corbyn faced backlash from both sides of the House of Commons for his reluctance to blame Russia for its role in the nerve-agent attack in Salisbury last year.

While many of Corbyn’s views are well established, less clear are his views on some of the biggest foreign-policy challenges Britain will face, from grappling with a rising China to balancing ties between the United States and the EU—though the Labour leader has frequently criticized the Conservative government on matters of domestic policy, he has rarely spoken out on these foreign-policy issues. And then there is the question of how his known views will translate into policy were he to lead Britain’s next government. Though prime ministers have significantly more latitude to make foreign-policy decisions, there are limits to what can be done unilaterally. “The prime minister has to obtain support from his cabinet and indeed his party in Parliament,” Chalmers, the deputy director general at RUSI, said. “There are some red lines the parliamentary party would simply not accept, which would threaten the viability of such a government.”

NATO membership would likely be one such red line—even as Corbyn has refashioned Labour, the party apparatus largely remains deeply committed to Western defense and security institutions. (Thornberry has publicly said Labour is committed to the defense alliance.) Continued support for Britain’s nuclear-weapons system, Trident, would be another. (The party’s defense spokesperson, Nia Griffith, has said the party supports maintaining Britain’s independent deterrent.) So far, Corbyn has been willing to acquiesce on those issues. Though he has expressed support for scrapping Britain’s nuclear arsenal and has personally opposed the continued funding of Trident, he pledged to honor the party’s decision to maintain the program, a promise that featured in the party’s 2017 election manifesto.

Corbyn’s position on using nuclear weapons isn’t simply hypothetical. As prime minister, one of the first things he would be required to do is write his four letters of last resort, handwritten instructions to Britain’s military leaders on what should happen in the event that Britain is hit with a nuclear attack. When asked whether Corbyn could go about limiting the country’s nuclear capacity another way—say, by instructing the military not to employ nuclear weapons under any circumstances—Chalmers said we’ll likely never know. “The impact of [letters of last resort] can be overstated, not least because the tradition is they’re never publicized,” he said, adding: “It would be a test, I think, of whether Jeremy Corbyn was prepared to obfuscate on this in a way which previous prime ministers have done … It’s more about how he would talk about it, rather than the actual letter.”

But perhaps the greatest impact a Corbyn premiership would have on Britain’s foreign policy is on which direction Britain decides to go post-Brexit, and whether it chooses to align more closely with its allies in Europe, with the Trump administration in the United States, or elsewhere. While both May and Johnson have prioritized courting President Donald Trump with the hopes of securing a post-Brexit trade deal with the United States, Corbyn has taken a more aggressive stance toward the American president, opting to skip a state dinner during Trump’s visit to Britain this year. (The Labour leader did, however, request a one-on-one meeting with Trump, which the president declined.)

Despite the long-standing “special relationship” between the U.S. and Britain, much divides the two allies—particularly on issues such as climate change, trade, and the Iran nuclear deal. Though these differences haven’t proved enough to hinder the two countries’ deep defense and security partnership, some believe a Corbyn premiership would impose unprecedented strain on the alliance. A recent report by the Washington-based Hudson Institute, a conservative think tank, concluded that Corbyn’s apparent willingness to countenance friendlier ties with Russia, Iran, and China would make Britain less of a “reliable partner” to the U.S., and called into question the country’s continued membership in NATO and Five Eyes, the intelligence alliance between the U.S. and Britain, as well as Canada, Australia, and New Zealand. “There is a serious risk that any information passed to either Corbyn or his close allies could be compromised,” the report said, labeling the concerns a bipartisan issue. “Even a Democratic administration, if it wins the 2020 elections, will find the U.K. has become a less predictable ally.”


All this, of course, presumes that a Labour majority is possible—something that even those closest to the party admit is a faint possibility. Recent polls put Labour as much as eight points behind the Conservatives (33 percent), followed by the Liberal Democrats (19 percent) and the nascent Brexit Party (13 percent). Though these figures don’t necessarily correlate with the number of parliamentary seats each party will secure, they suggest that Labour would almost certainly struggle to form a government on its own. Bob Kerslake, an independent member of the House of Lords and a former head of the British civil service who has been helping prepare the Labour Party for government since 2015, told me the most likely scenario is that Labour would lead “a minority government, acting with the support of the [Scottish National Party] and the Liberal Democrats,” smaller parties that share Labour’s opposition to a no-deal Brexit.

But such an arrangement wouldn’t be without its drawbacks. Kerslake said that while it would put Labour into power, the reliance on other parties would “impact their ability to take forward all of their policies in their manifesto.”

[Read: Can Brexit Be Stopped?]

While the party’s mandate will serve as one check on a future Labour government, Brexit will serve as the other. At present, there is no fixed date for a general election, though Johnson’s position as a prime minister in charge of a minority government means one is likely in the near future. Britain is, at the same time, poised to leave the EU on October 31, though Parliament has passed a law forcing Johnson to seek a further extension if a deal with the bloc isn’t agreed upon. That leaves open the prospect that any future election might be held with Britain still a member of the EU, meaning the next steps on how to proceed would fall to the next government. Corbyn has already pledged that if elected, he would seek to renegotiate a deal of his own with Brussels that would keep Britain closely aligned to EU rules and regulations.

But Parliament has already expressed its opposition to such a scenario—as well as virtually every other one. Unless Parliament could agree on something else, a new Labour government could easily find itself trapped in the same deadlock that has thwarted previous leaderships. And, just like that, any notion of Corbyn radicalism—on nuclear disarmament, foreign policy, the Western alliance, or really anything else—could then be caught up in the same issue that has overwhelmed this country for the past three years.

“If Brexit is unresolved, then Corbyn’s government is going to be dominated by Brexit,” Gapes said. “Just like Cameron’s government, May’s government, [and] Johnson’s government has been dominated by Brexit.”

Assista Greta Thunberg contra o colapso climático: ‘se podemos salvar os bancos, podemos salvar o mundo’

Assista Greta Thunberg contra o colapso climático: ‘se podemos salvar os bancos, podemos salvar o mundo’

Estamos vivendo momentos assustadores. Como a ativista Greta Thunberg nos diz com tanta frequência: “Nossa casa está pegando fogo”. E acredito firmemente que há três coisas que precisam ser alinhadas se quisermos apagar as chamas. Primeiro, precisamos da coragem de sonhar com um tipo diferente de futuro. Para afastar o sentimento de apocalipse inevitável que permeou nossa cultura. Para nos dar um destino, um objetivo comum, uma imagem do mundo em que estamos trabalhando.

Mas esses sonhos são inúteis, a menos que estejamos dispostos a abraçar as outras duas forças. Uma é a necessidade de confrontar a verdade de nosso momento na história – a verdade de quanto já perdemos e de quanto mais estamos à beira de perder se não abraçarmos níveis revolucionários de mudança.

A outra coisa que precisamos fazer é a seguinte: encontramos nossa luta. Temos que nos unir através das diferenças e construir um poder credível e inabalável. Diante dos incêndios que agitam nosso mundo, temos que encontrar nosso próprio fogo. Verdade e fogo.

Greta Thunberg é uma das grandes reveladoras desta ou de qualquer outra época. Deixe-me refrescar suas memórias sobre algumas de suas linhas mais icônicas. Para os negociadores climáticos da ONU na Polônia em dezembro passado, ela disse: “Você não é maduro o suficiente para dizer como é. Até esse fardo que você deixa para nós, crianças.

Para os deputados britânicos que pediram que ela falasse, ela perguntou: “Meu inglês está bom? O microfone está ligado? Porque estou começando a me perguntar.”

Para os ricos e poderosos de Davos, que a elogiaram por lhes dar esperança, ela respondeu: “Não quero sua esperança… Eu quero que você entre em pânico. Quero que você sinta o medo que sinto todos os dias. Eu quero que você aja. Quero que você aja como faria em uma crise. Quero que você aja como se a casa estivesse pegando fogo, porque está.

Ela também disse que nem todos são os culpados pela crise climática. Não, ela os olhou nos olhos e disse que eles eram os culpados. E sempre a amaremos por isso.

Mas Greta não é só conversa. Tudo isso começou com a ação. Começou quando Greta percebeu, um ano e um mês atrás, que se ela queria que políticos poderosos se colocassem em pé de emergência para combater as mudanças climáticas, então ela precisava refletir esse estado de emergência em sua própria vida. E então ela parou de fazer a única coisa que todas as crianças deveriam fazer quando tudo estava normal: ir à escola para se preparar para o futuro quando adultas.

Em vez disso, ela se posicionou fora do parlamento da Suécia com uma placa feita à mão que dizia simplesmente: “Greve escolar pelo clima”. Ela começou a fazer isso toda sexta-feira e logo atraiu uma pequena multidão. Então outros estudantes começaram a fazer isso em outras cidades também.

Estudantes como Alexandria Villaseñor, que se posiciona fora das Nações Unidas nesta cidade toda sexta-feira, semana após semana, faça chuva, neve ou faça sol. Às vezes, as greves climáticas estudantis eram apenas uma criança solitária. Às vezes, dezenas de milhares apareciam.

E então, em 15 de março, veio a primeira greve global pelas escolas pelo clima. Mais de 2.000 greves em 125 países, com 1,6 milhão de jovens participando em um único dia. 1,6 milhão de pessoas. Isso é uma conquista e tanto para um movimento que começou oito meses antes com uma única menina de 15 anos em Estocolmo, Suécia.

E agora esse movimento está se preparando para o maior desafio de todos os tempos: eles pediram que pessoas de todas as idades participem e entrem em greve, em todo o mundo, em 20 de setembro. Porque proteger o futuro não é um esporte para espectadores.

Thunberg e os muitos outros jovens ativistas deixaram bem claro que não querem que os adultos deem tapinhas na cabeça e agradeçam pela infusão de esperança. Eles querem que a gente se junte a eles e lute pelo futuro ao seu lado. Porque é o direito deles. E todo o nosso dever.

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Friday, 20 September 2019

Apenas um New Deal Verde pode conter o eco-fascismo

Apenas um New Deal Verde pode conter o eco-fascismo

Os organizadores esperam que um grande número de pessoas participem da Greve Global pelo Clima, que começou em 20 de setembro e seguirá até o dia 27. Essa edição se baseia na primeira greve climática global, realizada em 15 de março, e que atraiu cerca de 1,6 milhão de jovens que abandonaram as aulas em escolas de todos os continentes.

Mas a greve desta semana será diferente. Desta vez, jovens organizadores convidaram adultos de todas as esferas da vida para se juntarem a eles nas ruas. Assim, além de escolas em mais de 150 países, quase mil trabalhadores na sede da Amazon em Seattle se comprometeram a se juntar à greve, assim como alguns sindicatos de professores universitários, o Congresso da União Britânica de Comércio e muitos outros. Há um plano para fazer Washington DC parar em 23 de setembro.

Essa diversidade dos grupos envolvidos pode muito bem se revelar uma nova etapa no movimento climático, com muitos outros movimentos e distritos eleitorais se vendo na luta contra o colapso climático – bem como na visão emergente de um New Deal Verde interseccional baseado na justiça.

E também é uma coisa boa porque, como Donald Trump vomita o ódio racista aos refugiados das Bahamas que fogem dos destroços do furacão Dorian e um número crescente de assassinos de extrema direita cita danos ambientais como justificativa para sua violência, há uma necessidade premente de enfrentar os caminhos em que os incêndios do colapso climático já se cruzam com os da supremacia branca e da xenofobia que cresce globalmente.

Esses são os temas que exploro em profundidade em meu novo livro, “On Fire: The (Burning) Case for Green New Deal” [em tradução livre, “Em chamas: O caso (ardente) de um New Deal Verde”], do qual este ensaio foi extraído.

Um massacre eco-fascista

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Imagem: Cortesia de Simon & Schuster

Em Christchurch, na Nova Zelândia, a Greve Escolar pelo Clima de 15 de março começou da mesma maneira que em muitas outras cidades: alunos barulhentos saíram de suas escolas ao meio do dia segurando cartazes que exigiam uma nova era de ação climática. Alguns eram doces e sinceros (EU DEFENDO O CHÃO QUE PISO), outros menos (MANTENHA A TERRA LIMPA. AQUI NÃO É URANO!).

Às 13 horas, cerca de 2 mil crianças haviam chegado à Cathedral Square, no centro da cidade, onde se reuniram em um palco improvisado e contribuíram com um sistema de som para ouvir discursos e música.

Havia estudantes de todas as idades, e uma escola maori inteira havia se juntado à greve. “Eu estava tão orgulhosa de toda a cidade de Christchurch”, me disse uma das organizadoras, Mia Sutherland, de 17 anos. “Todas essas pessoas foram muito corajosas. Não é fácil sair.”

No momento em que Sutherland estava se preparando para prestar o testemunho final do dia, uma de suas amigas deu-lhe um puxão e disse: “Você tem que encerrar. Agora!” Sutherland estava confusa – eles tinham sido barulhentos demais? Nesse momento, um policial subiu ao palco e tirou o microfone da mão dela. Todo mundo precisa sair da praça, disse ele pelo sistema de som. Vão para casa. Voltem para a escola. Mas fiquem longe do Hagley Park.

Algumas centenas de estudantes decidiram marchar juntos até a prefeitura para manter o protesto. Sutherland, ainda confusa, foi pegar um ônibus – e foi quando ela viu uma manchete em seu celular sobre um tiroteio a 10 minutos de onde estava. Levaria várias horas até que os jovens grevistas percebessem o horror total do que havia acontecido naquele dia – e por que eles foram instruídos a ficar longe de um parque perto da mesquita Al Noor.

Hoje sabemos que, ao mesmo tempo em que a greve climática dos estudantes acontecia, um australiano de 28 anos que vive na Nova Zelândia dirigiu até a mesquita, entrou e, durante as orações de sexta-feira, abriu fogo contra os presentes. Após seis minutos de carnificina, ele saiu calmamente de Al Noor, dirigiu-se para outra mesquita e continuou a violência. No final, 50 pessoas foram mortas, incluindo uma criança de 3 anos. Outro morreria no hospital semanas depois. Outros 49 ficaram gravemente feridos. Aquele foi o maior massacre da história recente da Nova Zelândia.

O assassino não foi movido por preocupações ambientais – sua motivação era o autêntico ódio racista –, mas o colapso ecológico foi uma das forças que pareciam estar alimentando esse ódio.

Em seu manifesto (publicado em vários sites de mídia social) e nas inscrições de sua arma, o assassino expressou admiração pelos homens responsáveis por outros massacres semelhantes: no centro de Oslo e em um acampamento de verão norueguês em 2011 (77 pessoas mortas); na Igreja Episcopal Metodista Africana de Emanuel, em Charleston, na Carolina do Sul, em 2015 (nove pessoas assassinadas); em uma mesquita da cidade do Quebec em 2017 (seis pessoas mortas); e na sinagoga da Árvore da Vida de Pittsburgh em 2018 (11 pessoas assassinadas). Como todos os outros terroristas, o atirador de Christchurch era obcecado pelo conceito de “genocídio branco”, uma suposta ameaça representada pela crescente presença de populações não brancas nas nações majoritariamente brancas, que ele atribuía aos “invasores” imigrantes.

O horror em Christchurch fazia parte desse padrão claro e crescente de crimes de ódio de extrema direita, mas também era distinto de duas maneiras. Uma era a medida em que o assassino planejou e executou seu massacre como um espetáculo feito para a internet. Antes de começar seu tumulto, ele anunciou no fórum 8chan que “é hora de parar de apenas postar coisas e fazer um post na vida real”, como se um assassinato em massa fosse apenas um meme particularmente chocante esperando para ser compartilhado.

A natureza hipermediada do massacre de Christchurch, com a óbvia tentativa do assassino de brincar com seu “post na vida real”, fez um contraste insuportável com a realidade devastadora de seu crime – de balas atingindo pessoas, de famílias atingidas pela dor e de uma comunidade muçulmana global que recebeu uma mensagem aterrorizante de que seus membros não estavam seguros em lugar algum, nem mesmo na santidade da oração.

Ela também contribuiu para um contraste violento com os jovens grevistas climáticos que se reuniram exatamente ao mesmo tempo para um propósito tão diferente. Onde o assassino brincava alegremente com as linhas entre fato, ficção e conspiração, como se a própria idéia da verdade fosse #FakeNews, os grevistas insistiam meticulosamente que realidades duras, como gases de efeito estufa acumulados, pegadas de carbono e uma espiral de extinções realmente importavam, e exigiam que os políticos acabassem com a distância entre suas palavras e suas ações.

Quando falei com ela seis semanas depois daquele dia terrível, Mia Sutherland ainda estava tendo problemas para separar a greve e o massacre; eles de alguma forma se fundiram em sua memória. “Na mente de ninguém eles estão separados”, ela me disse, sua voz apenas um tom acima de um sussurro.

Quando eventos intensos acontecem muito próximos, a mente humana frequentemente tenta estabelecer conexões que não existem, um fenômeno conhecido como apofenia. Mas, neste caso, havia conexões. Na verdade, a greve e o massacre podem ser entendidos como reações opostas espelhadas a algumas das mesmas forças históricas. E isso se relaciona com a outra maneira pela qual o assassino de Christchurch se distingue dos assassinos em massa da supremacia branca de quem ele abertamente se inspirou. Ao contrário deles, ele se identifica explicitamente como um “eco-fascista etno-nacionalista”. Em seu manifesto incoerente, ele descreveu suas ações como um tipo de ambientalismo distorcido, criticando o crescimento populacional e afirmando que “a imigração contínua na Europa é uma guerra ambiental”.

Para deixar claro, o assassino não foi movido por preocupações ambientais – sua motivação era o autêntico ódio racista –, mas o colapso ecológico foi uma das forças que pareciam estar alimentando esse ódio, da mesma forma que o vemos agir como um acelerador do ódio e da violência em conflitos armados ao redor do mundo. Meu medo é que, a menos que algo de significativo mude a forma como nossas sociedades lidam com a crise ecológica, veremos esse tipo de eco-fascismo do poder branco emergir com muito mais frequência, como uma racionalização feroz por recusar-se a cumprir nossas responsabilidades coletivas com o clima.

Muito disso se deve ao complexo cálculo do aquecimento global. Esta é uma crise esmagadora criada pelas camadas mais ricas da sociedade: quase 50% das emissões globais são produzidas pelos 10% mais ricos da população mundial; os 20% mais ricos são responsáveis por 70%. Mas os impactos dessas emissões estão prejudicando os mais pobres primeiro e de forma pior, forçando um número crescente de pessoas a se mover, com muitos outros a caminho. Um estudo de 2018 do Banco Mundial estima que, até 2050, mais de 140 milhões de pessoas na África Subsaariana, Sul da Ásia e América Latina serão deslocadas por causa do estresse climático, uma estimativa que muitos consideram conservadora. A maioria ficará em seus próprios países, aglomerando-se em cidades e favelas já superlotadas; muitos tentarão uma vida melhor em outro lugar.

Em qualquer universo moral, guiado por princípios básicos de direitos humanos, essas vítimas de uma crise provocada por outras pessoas deveriam receber justiça. Essa justiça deveria assumir muitas formas. Em primeiro lugar, a justiça exige que os 10 a 20% mais ricos parem a causa subjacente dessa crise cada vez mais grave reduzindo as emissões tão rapidamente quanto a tecnologia permitir (a premissa do New Deal Verde). A justiça também exige que atendamos ao chamado de um “Plano Marshall para a Terra” que o negociador climático da Bolívia pediu há uma década: lançar recursos no sul global para que as comunidades possam se fortalecer contra o clima extremo, sair da pobreza com tecnologia limpa e proteger seus modos de vida sempre que possível.

Quando a proteção não for possível – quando a terra é simplesmente seca demais para o cultivo e quando os mares estão subindo rápido demais para impedi-los – a justiça exige que reconheçamos claramente que todas as pessoas têm o direito humano de se mover e buscar segurança. Isso significa que a eles são devidos asilo e status na chegada. Na verdade, em meio a tantas perdas e sofrimentos, a eles é devido muito mais do que isso: eles merecem bondade, compensação e um sincero pedido de desculpas.

Em outras palavras, a ruptura climática exige um acerto de contas no terreno mais revoltante para as mentes conservadoras: redistribuição de riqueza, compartilhamento de recursos e reparações. Um número crescente de pessoas na extrema direita percebe isso muito bem e é por isso que elas estão desenvolvendo várias lógicas distorcidas, pelas quais nada disso pode acontecer.

A primeira fase é gritar “conspiração socialista” e negar completamente a realidade. Já estamos nessa fase há algum tempo. Essa foi a atitude adotada por Anders Breivik, o sociopata que abriu fogo no acampamento de verão da Noruega em 2011. Breivik estava convencido de que, além da imigração, uma das maneiras pelas quais a cultura ocidental branca estava sendo enfraquecida era por meio de apelos à Europa e aos países anglófonos para pagar sua “dívida climática”. Em uma seção de seu manifesto intitulado “Verde é o novo vermelho – Parem o Comunismo Ecológico!”, em que cita vários negacionistas proeminentes da mudança climática, ele lança demandas para o financiamento do clima como uma tentativa de “‘punir’ os países europeus (EUA incluído) pelo capitalismo e seu sucesso”. A ação climática, ele afirma, “é a nova redistribuição da riqueza”.

Mas se a negação direta parecia uma estratégia viável, nove anos depois (com seis desses anos entre os dez mais quentes já registrados) ela não funciona. Isso não significa, no entanto, que negacionistas repentinamente adotarão uma resposta à crise climática baseada em acordos internacionais. É muito mais provável que muitos que atualmente afirmam negar a mudança climática simplesmente mudem abruptamente para a sinistra visão de mundo adotada pelo assassino de Christchurch, um reconhecimento de que estamos realmente enfrentando um futuro convulsivo e que é mais uma razão para países ricos de maioria branca fortalecerem suas fronteiras, bem como suas identidades como cristãos brancos, e travarem guerra contra todos e quaisquer “invasores”.

Mas se a negação direta parecia uma estratégia viável no passado, hoje ela não funciona.

A ciência climática não será mais negada; o que será negado é a ideia de que aquelas nações que foram, historicamente, as maiores emissoras de carbono, devem algo aos povos negros e pardos afetados por essa poluição. Isso será negado com base na única lógica possível: que essas pessoas não-brancas e não-cristãs são inferiores, são os outros, são invasores perigosos.

Em grande parte da Europa e dos países anglófonos, esse endurecimento já está em andamento. A União Europeia, a Austrália e os Estados Unidos adotaram políticas de imigração que são variações de “prevenção por meio da dissuasão”. A lógica brutal é tratar os migrantes com tanta insensibilidade e crueldade que pessoas desesperadas serão impedidas de buscar segurança atravessando fronteiras.

Com isso em mente, os migrantes são deixados a se afogar no Mediterrâneo ou morrer de desidratação no acidentado deserto do Arizona. E, se eles sobrevivem, são colocados em condições equivalentes à tortura: nos campos da Líbia, para onde os países europeus agora enviam os migrantes que tentam chegar às suas costas; nos campos de detenção de ilhas da Austrália; em um Walmart cavernoso que virou prisão infantil no Texas. Na Itália, se os migrantes chegam a um porto, agora são regularmente impedidos de desembarcar, mantidos em cativeiro em barcos de resgate sob condições que um tribunal decidiu serem equivalentes a sequestro.

Enquanto isso, o primeiro-ministro do Canadá envia fotos de si mesmo acolhendo refugiados e visitando mesquitas – mesmo quando seu governo faz grandes investimentos em militarizar a fronteira e apertar o laço do Acordo de Terceiro País Seguro, que impede os requerentes de asilo de solicitar proteção em passagens oficiais de fronteiras canadenses se vierem do supostamente “seguro” Estados Unidos de Trump.

O objetivo dessa fortificação na Europa e nos países anglófonos é muito claro: convencer as pessoas a permanecerem onde estão, por mais miserável e mortal que seja. Nesta visão de mundo, a emergência não é o sofrimento das pessoas; é o desejo inconveniente deles de escapar desse sofrimento.

É por isso que, poucas horas após o massacre de Christchurch, Trump pôde ignorar o surto de violência da extrema direita e mudar imediatamente de assunto para a “invasão” de migrantes na fronteira sul dos Estados Unidos e a recente declaração de uma “emergência nacional”, medida destinada a liberar bilhões de dólares para um muro na fronteira. Três semanas depois, Trump tuitou: “Nosso país está CHEIO!”. Isso seguiu o ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, respondendo à chegada de um pequeno grupo de migrantes resgatados no mar ao tuitar: “Nossos portos estavam e permanecem FECHADOS”.

Murtaza Hussain, repórter investigativo que estudou o manifesto do assassino de Christchurch de perto, enfatiza que o texto está cheio de ideias que são tudo menos insignificantes. Hussain escreve que as palavras dele são “lúcidas e assustadoramente familiares. Suas referências a imigrantes como invasores encontram ecos na linguagem usada pelo presidente dos Estados Unidos e líderes de extrema direita em toda a Europa. Para aqueles que se perguntam onde [ele] foi radicalizado, a resposta está muito clara. Foi em nossa mídia e política, onde minorias, muçulmanos ou outros, são difamados rotineiramente.”

Pessoas carregam o caixão de Tomas Joaquim Chimukme durante seu funeral, depois que sua casa desabou após o ciclone tropical Idai, que atingiu Beira, Moçambique, em 20 de março de 2019.

Pessoas carregam o caixão de Tomas Joaquim Chimukme durante seu funeral, depois que sua casa desabou após o ciclone tropical Idai, que atingiu Beira, Moçambique, em 20 de março de 2019.

Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images

Ideologias tóxicas

Os motores da migração em massa são complexos: guerra, violência de gangues, violência sexual, aprofundamento da pobreza. O que está claro é que a ruptura climática está intensificando todas essas outras crises e só vai piorar quando a temperatura subir. Mas, em vez de ajudar, os países mais ricos do planeta parecem determinados a aprofundar a crise em todas as frentes.

Eles estão deixando de fornecer ajuda significativa para que os países mais pobres possam se proteger melhor dos extremos climáticos. Quando o empobrecido e endividado Moçambique foi atacado pelo ciclone Idai, o Fundo Monetário Internacional ofereceu ao país 118 milhões de dólares, um empréstimo (não uma concessão) que de alguma forma teria que pagar de volta; a Jubilee Debt Campaign descreveu o ato como “uma acusação chocante da comunidade internacional”. Pior ainda, em março de 2019, Trump anunciou que pretendia cortar 700 milhões de dólares em ajuda para a Guatemala, Honduras e El Salvador, alguns dos quais foram destinados a programas que ajudam agricultores a lidar com a seca. Em uma expressão igualmente explícita de suas prioridades, em junho de 2018, no início da temporada de furacões, o Departamento de Segurança Interna desviou 10 milhões de dólares da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências, encarregada de responder a desastres naturais locais, e a transferiu para o setor de Imigração e Alfândega, com o objetivo de pagar pela detenção de migrantes.

Vamos compartilhar o que resta e tentar cuidar uns dos outros? Ou, em vez disso, tentaremos guardar o que sobrou, cuidar dos “nossos” e deixar todos os outros de fora?

Que fique claro: este é o início da barbárie climática. E, a menos que haja uma mudança radical não apenas na política, mas também nos valores subjacentes que governam nossa política, é assim que o mundo rico se “adaptará” a mais perturbações climáticas: desencadeando completamente as ideologias tóxicas que classificam o valor relativo de vidas humanas para justificar o descarte monstruoso de enormes parcelas da humanidade. E o que começa como brutalidade na fronteira certamente infectará as sociedades como um todo.
Essas ideias supremacistas não são novas; nem nunca foram embora. Para nós na América do Norte, eles estão profundamente enraizados na base jurídica da própria existência de nossas nações (da Doutrina do Descobrimento Cristão à terra nullius). Seu poder diminuiu e fluiu ao longo de nossas histórias, dependendo de quais comportamentos imorais exigiam justificativa ideológica. E, assim como essas ideias tóxicas surgiram quando foram necessárias para racionalizar a escravidão, o roubo de terras e a segregação, elas estão surgindo mais uma vez agora que são necessárias para justificar a recalcitrância climática e a barbárie em nossas fronteiras.

A crueldade em rápida escala de nosso momento atual não pode ser minimizada; tampouco o dano a longo prazo à psique coletiva se isso não for contestado. Sob o teatro de alguns governos que negam a mudança climática e outros que afirmam estar fazendo algo a respeito enquanto fortalecem suas fronteiras contra seus efeitos, há uma questão abrangente diante de nós. No instável e difícil futuro que já começou, que tipo de pessoas nós seremos? Vamos compartilhar o que resta e tentar cuidar uns dos outros? Ou, em vez disso, tentaremos guardar o que sobrou, cuidar dos “nossos” e deixar todos os outros de fora?

Neste tempo de mares em ascensão e ascenção do fascismo, essas são as escolhas diante de nós. Existem outras opções além da barbárie climática, mas, considerando o ponto a que chegamos, não há sentido em fingir que são fáceis. Será necessário muito mais do que um imposto sobre carbono ou cap-and-trade (comércio internacional de emissões de carbono). Será necessária uma guerra total contra a poluição, a pobreza, o racismo, o colonialismo e o desespero – tudo ao mesmo tempo.

A mensagem vinda da greve escolar é que muitos jovens estão prontos para esse tipo de mudança profunda. Eles sabem muito bem que a sexta extinção em massa não é a única crise que eles herdaram. Eles também estão crescendo entre os escombros da euforia do mercado, nos quais os sonhos de aumentar continuamente os padrões de vida deram lugar a uma austeridade desenfreada e insegurança econômica. E a tecno-utopia, que imaginava um futuro sem atritos de conexão e comunidade ilimitadas, se transformou em vício nos algoritmos de inveja, vigilância corporativa implacável, misoginia on-line e supremacia branca.

“Depois de fazer sua lição de casa”, diz a jovem ativista climática sueca Greta Thunberg, “você percebe que precisamos de novas políticas. Precisamos de uma nova economia, onde tudo se baseie em nosso orçamento de carbono, extremamente limitado e em rápido declínio. Mas isso não é o suficiente. Precisamos de uma nova maneira totalmente nova de pensar. … Temos que parar de competir uns com os outros. Precisamos começar a cooperar e compartilhar os recursos restantes deste planeta de maneira justa.”

Isso é necessário porque nossa casa está pegando fogo, e isso não deve ser uma surpresa. Construída com falsas promessas, futuros com desconto e pessoas sacrificadas, ela foi planejada para explodir desde o início. É tarde demais para salvar todas as nossas coisas, mas ainda podemos salvar um ao outro e muitas outras espécies também. Vamos apagar as chamas e construir algo diferente em seu lugar. Algo um pouco menos ornamentado, mas com espaço para todos aqueles que precisam de abrigo e cuidados.

Adaptado de “On Fire: The (Burning) Case for Green New Deal”, publicado pela Simon & Schuster.

Esta história faz parte do Covering Climate Now, uma colaboração global de mais de 250 veículos de notícias que visa fortalecer a cobertura da crise climática.

Tradução: Maíra Santos

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Photos of the Week: Giant Penguin, Forest Tower, Glacier Battlefield

A hydrofoil water taxi in Paris, a bore tide in China, wildfires in Indonesia and Brazil, the Rugby World Cup in Japan, a cyclocross challenge in England, Independence Day celebrations in Mexico, protests in Ecuador and Honduras, diving championships in in Kuala Lumpur, a whale rescue in Argentina, sunflowers in Kansas, and much more.

Wednesday, 18 September 2019

Back-to-School Night Is Hard for Single Parents

Susan Dynarski’s husband always took the lead at their kids’ school events, asking questions, getting updates, and advocating for their success. When Dynarski, whose job as a professor at the University of Michigan requires a lot of travel, wasn’t relying on her husband’s “social capital” at these gatherings, she was relying on him as an ally. “The parent-teacher nights were always something we did together,” she told me, even if that just meant they would simultaneously roll their eyes at a teacher or fellow parent. “So much of parenting is reflecting with each other, talking with each other as a sounding board.”

Now “all of that is missing,” Dynarski says. Her husband died of a heart attack in the spring of 2017, forcing Dynarski to attend back-to-school nights for their kids, now a high-school junior and a college sophomore, alone.* Seeing other couples at these gatherings is the hardest part, she says, because they remind her that she’s no longer one of them—that the days of seeing her husband wedge himself into miniature chairs and desks and having backup while she navigated school events are gone.

Back-to-school nights are meant to welcome and orient families to their kids’ schools, giving parents a chance to meet their kids’ teachers, and schools the opportunity to communicate their plans for the upcoming year. But for single parents who have to attend them alone, such events can have the opposite of the intended effect, making them feel isolated and overwhelmed. For those contending with a divorce or breakup—or, like Dynarski, with a death—these emotions may be compounded by grief. Dynarski, whose son is now in college, last year attended a dinner convening parents of incoming freshmen at the school; attendees were asked to go around introducing themselves, and Dynarski says her “stomach began to sink” as it became clear that pretty much every other parent was there with someone else.

Single parents account for a growing share of families in the United States. But they still often experience “insecurity about raising children alone without help,” as a team of education scholars and psychologists write in a 2018 book about single parenthood in the 21st century. Stereotypes about single parents abound, as do cultural messages about the importance of two-parent families. Events such as back-to-school nights can reinforce to single parents the message society often sends them that their parenting is insufficient or incomplete.

[Read: Why back-to-school season feels like the new year—even for adults]

Such events are almost always premised on traditional notions of child-rearing as a joint endeavor, argues Maurice Elias, a psychology professor at Rutgers University who has attended and observed many back-to-school nights over his four decades of studying social-emotional learning and student success. Schools often ask parents to attend back-to-school nights without their kids, but don’t offer child-care options. This forces parents to find a way to fit the one-off occasion into their schedules—and pay for child care—or simply not come.

“There’s a tremendous amount of juggling involved,” Elias told me. “If you’re a single parent for any reason—and you could be a ‘single parent’ because your husband or wife travels for business—then you have to figure out, especially if you have more than one child and the back-to-school nights aren’t coordinated, What am I going to do here?”

“Nothing [in schools] accommodates single parents,” Sarah Netter, a freelance writer based in New Orleans who’s the sole caregiver, by choice, of her first-grade adopted son, told me. “The fact of the matter is I just can’t physically be in two places at once.” She notes that her coordination struggles are also felt by families with two working parents.

“Schools aren’t thinking about working parents when they schedule things,” Netter says, noting that other events, such as parent-teacher conferences and bring-your-parent-to-lunch days, rest on the assumption that kids have a parent who doesn’t work or who can get time off, or that parents can find and afford child care. Netter says she’s almost always the only single parent in attendance at school functions.

“I’ve rarely seen a satisfactory back-to-school night,” Elias says, “and one of the issues is that because some parents can’t or won’t come, we don’t know what they would think of back-to-school night if they were there.”

A school, of course, can only do so much to ameliorate the logistical and emotional stress of being a single parent. But some tweaks to back-to-school night could help, Elias and others say—such as providing free child care, allowing parents to make up a missed orientation, or substituting the one-off event with a series of regular one-on-one check-ins between teacher and parent.

“So much of what the school does is catered toward stay-at-home parents,” Netter says. “Hopefully, by attending my son’s events, I can show people what single parenthood looks like.”


* This article has been updated to reflect that Susan Dynarski’s husband died of a heart attack.

Saudi First: Trump Wants to Start a War With Iran When MBS Gives the Order

Saudi First: Trump Wants to Start a War With Iran When MBS Gives the Order
US President Donald Trump and Saudi Arabia's Crown Prince Mohammed Bin Salman arrive for a meeting on "World Economy" at the G20 Summit in Osaka on June 28, 2019. (Photo by Eliot BLONDET / POOL / AFP)        (Photo credit should read ELIOT BLONDET/AFP/Getty Images)

U.S. President Donald Trump and Saudi Arabia’s Crown Prince Mohammed bin Salman arrive for a meeting on “World Economy” at the G-20 Summit in Osaka on June 28, 2019.

Photo: Eliot Blondet/AFP/Getty Images

Who remembers “The Bow”?

In April 2009, three months into his first term in office, Barack Obama found himself in the midst of a bizarre controversy. At a meeting of the G-20, the new U.S president appeared to bow his head to King Abdullah of Saudi Arabia.

Conservatives lost their minds. Fox News ran chyrons suggesting that Obama was “pandering” to Muslims; host Sean Hannity played the clip in slow motion and on a loop. Senate Republicans even ran an online ad attacking the president for bowing to the Saudi king, while the right-wing Washington Examiner published an editorial calling it “a shocking display of fealty to a foreign potentate.”

Fast forward a decade: If a president bowing to the Saudis made conservatives mad in 2009, what do they make of a president effectively putting the Saudis in charge of the U.S. military in 2019?

This was Donald Trump’s response to the recent airstrikes on two state-owned oil facilities in Saudi Arabia:


Two points are worth considering here. First, Article 1, Section 8, Clause 11 of the U.S. Constitution grants Congress the “power to declare war.” Previous presidents, including Obama, have ignored this War Powers Clause and transferred authority for war-making to the executive branch; none of them, however, publicly handed over that authority to a foreign government — an absolute monarchy, no less. Reread those words again from the president: “Waiting to hear from the Kingdom … and under what terms we would proceed.”

This is “America First”? This doesn’t constitute “a shocking display of fealty to a foreign potentate”? It is difficult, as the New York Times reports, “to imagine him allowing NATO, or a European ally, such latitude to determine how the United States should respond.” So what is behind this jaw-dropping tweet from the president? Is this Trump’s longstanding and hawkish obsession with the Iranians on show again, which also led him to unilaterally withdraw the United States from the Iran nuclear deal in 2018? Is this yet another example of his love affair with foreign tyrants, whether Crown Prince Mohammed bin Salman of Saudi Arabia, Kim Jong Un of North Korea, or Abdel Fattah el-Sisi of Egypt, who he has called his “favorite dictator”? (Can you imagine, incidentally, how jealous the crown prince must have been when he heard the news about Trump and Sisi?)

Or is this further evidence of how this commander-in-chief is financially compromised by his business connections to the Saudis? As I explained in a video essay last year, the Saudis have been bailing out Trump since the 1990s — and have continued to do so since he entered the White House. “Saudi Arabia … they buy apartments from me. They spend $40 million, $50 million,” Trump once declaimed. “Am I supposed to dislike them? I like them very much.”


Harsh questions need to be asked of the president’s relationship with the Saudi royals — especially if he is planning on putting U.S. forces in harm’s way on their behalf, and at their direction, without congressional approval.

Second, Trump is a belligerent hawk and has always been a belligerent hawk. The “Donald the Dove, Hillary the Hawk” nonsense from Maureen Dowd & Co. during the election campaign wasn’t true then and isn’t true now. Who else but a belligerent hawk deploys the action-movie rhetoric of “locked and loaded”? On Monday, the day after his tweet, Trump was asked by a reporter in the Oval Office if he had evidence that Iran was behind the attacks on Saudi Arabia. “We’re having some very strong studies done, but it’s certainly looking that way at this moment,” he replied, before bragging about having “the strongest military in the world.”

Will the media pose any tough questions about the nature of these “strong studies”? It doesn’t look good so far. Consider this uncritical headline from MSNBC, based on three anonymous sources: “U.S. intelligence shows Saudi oil attack was launched from Iran.”

Thankfully, however, there has been some pushback from a range of unexpected sources. Pentagon officials — still under the leadership of an acting defense secretary since the departure of James Mattis — have “recommended a restrained response to the recent attacks on Saudi oil facilities, arguing against a potentially costly conflict with Iran” and told reporters that “the administration would need to find a valid legal basis to take action.” Former Republican Sen. Bob Corker, who chaired the Senate Foreign Relations Committee until the start of this year, called the timing of these attacks “really strange,” adding: “We need to make sure we know who is responsible. Who benefits most from these actions?”

Then there is Kingdom of Saudi Arabia itself. In an odd twist, “Saudi officials said the U.S. didn’t provide enough proof to conclude that the attack was launched from Iran,” reported the Wall Street Journal on Monday, “indicating the U.S. information wasn’t definitive.” The kingdom has “asked United Nations experts to help determine who was responsible for the airstrikes.” The Saudis, it seems, want war with Iran — they just don’t want to be blamed for helping start it.

So what happens next? How can anyone possibly know anything, except that the odds of another catastrophic conflict in the Middle East have rapidly increased? This is the bizarro world we now inhabit, in which the Saudis spend years pushing to fight Iran “to the last American,” the president of the United States then publicly says he’ll fight that war on their behalf and on their command, but they then seem to turn him down; in which a Democratic senator goes on Fox News to (wrongly) suggest that military action against Iran is justified while a Fox News personality takes to Twitter to (rightly) urge the president not to “put our military men & women in harm’s way defending multi-billionaire oil sheiks”; in which superhawk John Bolton left the Trump administration because he believed that the president was going soft on Iran and yet the very next week Trump says he is “locked and loaded” and ready to bomb Tehran; in which The Onion now seems more accurate and prescient than the New York Times or the Washington Post.

My head hurts.

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