Friday, 6 December 2019

Crianças nascidas no Iraque perto de base militar norte-americana têm ‘deformidades congênitas graves’

Crianças nascidas no Iraque perto de base militar norte-americana têm ‘deformidades congênitas graves’

Passados mais de quinze anos desde a invasão norte-americana ao Iraque, em 2003, um novo estudo descobriu uma conexão entre o atual nascimento de bebês com deformidades congênitas graves e a continuidade da presença militar americana no local. O relatório, emitido por uma equipe independente de médicos pesquisadores e publicado no periódico Environmental Pollution, examinou as anomalias congênitas registradas em bebês iraquianos nascidos nas proximidades da Base Aérea de Tallil, operada por uma aliança militar estrangeira liderada pelos EUA. Segundo o estudo, os bebês que apresentavam anomalias congênitas graves – incluindo problemas neurológicos, doença cardíaca congênita e paralisia ou ausência de membros – também apresentavam em seus corpos altos níveis de um composto radioativo chamado tório.

“Os médicos frequentemente encontram anomalias tão graves que não é possível estabelecer precedentes para elas.”

“Coletamos amostras de cabelos, dentes decíduos (de leite) e medula óssea de indivíduos que moravam nas proximidades da base”, explicou Mozhgan Savabieasfahani, um dos pesquisadores que lideraram o estudo. “Encontramos a mesma tendência nos três tipos de tecido: altos níveis de tório.” Savabieasfahani, que participou de estudos sobre os resíduos radioativos deixados pelas forças militares dos EUA no Iraque ao longo dos anos, considera que as novas descobertas contribuem para as crescentes evidências a respeito dos graves impactos de longo prazo das operações militares dos EUA sobre a saúde dos civis iraquianos. “Quanto mais perto de uma base militar norte-americana no Iraque você mora”, relatou ele, “mais alta a concentração de tório no seu corpo e mais provável que você sofra malformações e defeitos congênitos graves.”

Esse novo estudo vem contribuir para uma base de conhecimento cada vez maior sobre os graves efeitos negativos das forças militares dos EUA nos ambientes onde operam. Toda atividade militar industrializada é ruim para os ecossistemas, mas no caso dos EUA, a magnitude do contingente, associada à disseminação de suas atividades pelo mundo inteiro, representa um impacto ambiental especialmente grande. Não apenas as Forças Armadas dos EUA lideram as emissões mundiais de carbono, mas sua vasta presença por todo o mundo deixa um rastro tóxico de produtos químicos com que as comunidades locais precisam lidar: desde os chamados “poços de incineração” das bases, que liberam fumaça tóxica, até a radiação dos projéteis com urânio empobrecido, que causam mutações no DNA das populações vizinhas.

O sofrimento dos iraquianos tem sido especialmente intenso. Os resultados do novo estudo contribuíram para uma grande lista de impactos negativos sobre a saúde de longo prazo da população do país em decorrência da duradoura guerra empreendida pelos EUA. Estudos anteriores, incluindo alguns elaborados pela equipe liderada por Savabieasfahani, apontaram taxas elevadas de incidência de câncer, abortos espontâneos e intoxicação radiológica em locais como Fallujah, onde os EUA realizaram ataques de grande porte durante a ocupação do país.

O estudo publicado na Environmental Pollution foi conduzido por uma equipe de pesquisadores independentes do Iraque e dos EUA durante o segundo semestre de 2016. Eles analisaram 19 bebês nascidos com deformidades congênitas em uma maternidade nos arredores da Base Aérea de Tallil, em comparação com um grupo controle de 10 recém-nascidos saudáveis.

“Os médicos frequentemente encontram anomalias tão graves que não é possível estabelecer precedentes para elas”, declarou Sabahieasfahani. “A guerra disseminou tanta radiação por aqui que, a não ser que seja feita uma limpeza, gerações de iraquianos continuarão a ser atingidas.”

Uma série de imagens de um estudo conduzido por uma equipe independente de médicos pesquisadores mostra as deformidades sofridas pelas crianças pequenas que vivem nas proximidades de uma base militar norte-americana ativa no Iraque.

Uma série de imagens de um estudo conduzido por uma equipe independente de médicos pesquisadores mostra as deformidades sofridas pelas crianças pequenas que vivem nas proximidades de uma base militar norte-americana ativa no Iraque.

Fotos: Estudo "Morar perto de uma base militar americana ativa no Iraque está associado a um tório capilar significativamente mais alto e a uma maior probabilidade de anomalias congênitas em bebês e crianças", de 2019.

Alguns desses efeitos negativos de saúde podem ser atribuídos ao uso frequente pelas forças norte-americanas de munições contendo urânio empobrecido. O urânio empobrecido, um subproduto do urânio enriquecido usado para abastecer os reatores nucleares, aumenta a eficiência de balas e cartuchos na destruição de veículos blindados, em razão de sua extrema densidade. No entanto, ele é considerado prejudicial ao meio ambiente e à saúde de longo prazo das pessoas que moram nos lugares onde essas munições são usadas.

“Urânio e tório foram o foco principal desse estudo”, observam os autores. “As evidências epidemiológicas são consistentes com um risco aumentado de anomalias congênitas na prole de pessoas expostas ao urânio e suas formas empobrecidas.” Em outras palavras: os pesquisadores descobriram que quanto mais você estivesse por perto dessas armas americanas, maior a sua chance de ter filhos com malformações e outros problemas de saúde.

Em resposta à indignação pública sobre os efeitos negativos do urânio empobrecido, as forças militares dos EUA se comprometeram a não usá-lo em seus bombardeios contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. A despeito dessa promessa, porém, uma investigação feita em 2017 pelo grupo independente de pesquisa AirWars e pela revista Foreign Policy mostrou que os militares haviam continuado a usar regularmente projéteis contendo o composto tóxico.

Essas munições de urânio empobrecido figuram entre as causas de risco não apenas para os civis dos locais onde os EUA combatem em suas guerras, mas também para os norte-americanos que estão a serviço do país nesses conflitos. As doenças crônicas sofridas pelos soldados americanos durante a guerra de 1991 no Iraque – frequentemente decorrentes da exposição às munições de urânio e outros produtos químicos tóxicos – foram categorizadas como uma condição chamada “síndrome da Guerra do Golfo”. Mas o governo dos EUA está menos interessado nos efeitos dos resíduos de seus produtos químicos militares sobre os iraquianos. O uso de “poços de incineração” – fogueiras tóxicas a céu aberto usadas para descartar resíduos militares – juntamente com outras fontes de contaminação vêm tendo um impacto duradouro sobre a saúde das gerações atuais e futuras de iraquianos.

Os pesquisadores que conduziram o estudo mais recente relatam que um estudo mais amplo é necessário para obter resultados definitivos em relação a esses impactos de saúde. As imagens dos bebês nascidos com malformações no hospital onde o estudo foi conduzido, a Maternidade Bint Al-Huda, a cerca de 10 quilômetros da Base Aérea de Tallil, são terríveis e assustadoras. Savabieasfahani, o pesquisador-chefe, disse que, sem um esforço das forças militares dos EUA para fazer a limpeza de seus resíduos radioativos, os bebês vão continuar a nascer com as deformidades documentadas em seu estudo e em vários outros.

“Poderia haver uma limpeza dos resíduos radioativos dos militares caso houvesse oficiais interessados em fazê-la”, disse ele. “Infelizmente, até mesmo as pesquisas sobre o problema dos defeitos congênitos no Iraque precisam ser feitas por toxicologistas independentes, porque as Forças Armadas e outras instituições norte-americanos não estão sequer interessadas nesse assunto.”

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Thursday, 5 December 2019

2019 in Photos: Wrapping Up the Year

As the year comes to a close, it’s time to take a look at some of the most memorable events and images of 2019. Events covered in this essay (the last of a three-part photo summary of the year) include pro-democracy demonstrations in Hong Kong, anti-government protests in Chile and Iraq, a toxic sky over New Delhi, an all-female team of spacewalkers, a planned “storming” of Area 51, the aftermath of Hurricane Dorian, and much more. See also “Top 25 News Photos of 2019” and “2019 in Photos: Part 1” and “2019 in Photos: Part 2.” The series comprises 120 images in all.

Wednesday, 4 December 2019

Ao menos 30 alunas acusam professores do Instituto Federal do Amazonas de assédio sexual

Ao menos 30 alunas acusam professores do Instituto Federal do Amazonas de assédio sexual

Pelo menos 30 estudantes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas já acusaram professores da instituição de assédio sexual desde 2013. Os casos foram relatados à direção do Ifam, umas das principais instituições de ensino médio e ensino profissionalizante do estado, e envolvem 18 professores. Algumas denúncias também foram levadas ao Conselho Tutelar, à polícia e ao Ministério Público estadual e federal. Ao todo, as acusações abrangem nove dos 16 campi do instituto, espalhados por oito municípios. As estudantes, todas entre 15 e 18 anos, relataram terem sido assediadas no ambiente escolar e fora dele. Desde então, seis professores foram demitidos, um não teve o contrato temporário de trabalho renovado e outros 11 seguem dando aulas ou foram temporariamente afastados.

Apesar dos casos de assédios serem frequentes, as punições aos professores são raras. Das 18 denúncias que apurei, apenas seis resultaram em demissão e duas nem sequer foram oficialmente investigadas pelo Ifam. Entre os professores demitidos, apenas um respondeu a processo criminal e acabou condenado ao pagamento de quatro salários-mínimos e a 485 horas de trabalho comunitário.

Uma das primeiras denúncias surgiu ainda em 2013 quando sete alunas do Ifam de Maués, interior do estado, relataram sofrer assédio sexual do professor Jonathas Paiva do Nascimento, titular da disciplina de meio ambiente. A maioria dos casos, porém, começou a vir à tona a partir de 2017, após serem realizadas campanhas de conscientização sobre assédio e abuso sexual em todos os campi do Ifam.

Cheguei aos denunciados por meio das portarias publicadas pela reitoria do Ifam determinando o afastamento dos professores que estão respondendo a Processo Administrativo Disciplinar, o PAD, por assédio sexual. Também considerei as sindicâncias em andamento contra professores pelo mesmo motivo. Uma delas está sendo acompanhada pelo Ministério Público do estado e há ainda um caso que se transformou em inquérito no Ministério Público Federal. Há ainda dois casos em que as alunas denunciaram os professores formalmente à instituição, mas ainda não foi aberta nenhuma investigação.

‘O assédio às adolescentes sempre foi conhecido por todos do Ifam, mas combatido por poucos.’

Uma professora com quem conversei diz que o assédio às adolescentes sempre foi conhecido por todos do Ifam, mas combatido por poucos, devido à ideia equivocada de que “são as meninas que seduzem e de que isso só acontece quando elas querem e permitem”. Ela preferiu não se identificar por medo de retaliação. A advogada de um dos professores chegou a argumentar que uma adolescente assediada não era “ingênua nas coisas do sexo” e que, hoje, “é muito rara a inexperiência em moças de 16 anos, tanto na capital como no interior”.

Os casos se concentram no interior do Amazonas e muitos deles envolvem estudantes bolsistas que recebem até R$ 200 mensais para participarem de projetos de extensão. Isso, segundo essa professora, leva a uma certa dependência da aluna em relação ao responsável pelo projeto, que se aproveita disso para assediar. Nascimento, por exemplo, coordenava um trabalho sobre os benefícios dos passeios públicos para a qualidade de vida no município de Maués. Dados do IBGE mostram que mais da metade dos moradores da cidade de 52 mil habitantes ganham até meio salário-mínimo por mês e apenas 5% têm empregos formais, o que torna a bolsa essencial para muitas famílias. Segundo os depoimentos que constam no PAD, ele se valia disso para abusar das estudantes.

As vítimas do professor, com idade entre 15 e 18 anos, relataram que ele passava a mão nos seus corpos, oferecia presentes, fazia perguntas de cunho sexual, tentava agarrá-las à força e as ameaçava para que ficassem caladas. Em depoimento no PAD que resultou na demissão do professor em 2014, uma das alunas afirmou que preferiu perder a bolsa a suportar as tentativas dele de passar as mãos nas suas coxas e nádegas.

Nascimento também respondeu criminalmente por assédio sexual de menores. Ele foi condenado a um ano e quatro meses de prisão e teve a pena convertida em pagamento de quatro salários mínimos e 485 horas de trabalho comunitário, decisão confirmada pelo TRF1 em junho de 2019. Por telefone, ele me disse que ainda está recorrendo da decisão. “Não posso admitir o que não cometi”.

Acusados de assédio seguem dando aula

A lei dos servidores públicos recomenda o afastamento dos investigados durante o andamento de processos administrativos. Mas, como essa mesma lei só permite que eles se mantenham longe do trabalho por até quatro meses e as investigações costumam levar mais tempo do que isso, são frequentes os casos de professores acusados de assédio que voltam às salas de aula durante a apuração do episódio.

É o caso do professor de biologia Edvaldo Pereira Mota, do campus de Manacapuru, a cerca de 100 km de Manaus. Denunciado à direção do instituto por seis alunas, ele ficou afastado de maio a setembro e, agora, são as vítimas que deixam a sala nos horários em que ele dá aula, como me relatou a mãe de uma estudante.

Em uma denúncia registrada também no Conselho Tutelar da cidade, uma das vítimas disse que, no final de 2017, Mota passou a mandar mensagens para o seu celular tratando sobre assuntos escolares. Depois vieram os pedidos para marcar encontros, perguntas sobre virgindade, pedidos de fotos sensuais, conversas de cunho sexual e, por último, a tentativa de agarrar e de beijar a adolescente à força, dentro do carro dele. Na época, Mota era coordenador de um projeto de extensão do qual a adolescente fazia parte.

Uma jovem admitiu em seu depoimento que só percebeu que as atitudes do professor eram erradas depois de descobrir que outras colegas estavam sendo assediadas.

Apaixonada pelo professor, a jovem admitiu em seu depoimento que só percebeu que as atitudes dele eram erradas depois de descobrir que outras colegas estavam sendo assediadas. Depois da denúncia contra Mota, outros dois professores dos campi de Manacapuru também foram denunciados à direção do instituto – Danniel Rocha Bevilaqua, que leciona recursos pesqueiros, e Gilder Branches, de educação física.

Uma das vítimas contou em depoimento que os professores faziam uma espécie de “rodízio” de assédio entre as alunas. Ao todo, nove adolescentes relataram assédio de algum deles à direção do instituto. Pelo menos quatro dizem que foram assediadas por dois professores ao mesmo tempo, e uma jovem diz ter sido vítima dos três professores.

Mota já voltou para a sala de aula, mas Bevilaqua tem renovado constantemente os pedidos de licença médica devido a um acidente de trânsito que sofreu pouco tempo depois que foi acusado, em maio. Ele se vale de uma cláusula da mesma lei que trata de processos administrativos que determina que um servidor não pode responder a um PAD enquanto estiver afastado por motivo de saúde. O último atestado entregue por Bevilaqua é válido até dezembro, e ele continua trabalhando nas pesquisas que desenvolve no laboratório do Instituto Nacional de Pesquisas do Amazonas.

Apesar de ter sido denunciado formalmente à direção do instituto por assédio por duas alunas, Branches não está sendo investigado. Uma das vítimas relatou à diretoria do Ifam que ele a abordava nos corredores da escola convidando-a para se encontrarem num hotel. Constrangida, a aluna parou de ir às aulas de educação física, disciplina em que chegou a reprovar por faltas no primeiro bimestre deste ano.

A mãe de uma das jovens também me contou que a filha perdeu muito peso, mudou de comportamento e agora “está sempre calada e triste”. “Faço de tudo para ela esquecer o que aconteceu, mas a gente sabe que não é fácil”.

Por e-mail, Branches afirmou que desconhece as denúncias de assédio contra ele. Mota não respondeu às minhas mensagens. Bevilaqua reforçou que está de licença médica e pediu que eu entrasse em contato com a assessoria de comunicação do Ifam.

Seis professores investigados em Coari

Distante 433 km de Manaus, o campus de Coari concentra a maioria das denúncias – são seis acusados e ao menos sete vítimas. Os seis professores foram afastados juntos pelo Ifam, de junho a outubro de 2018, depois de uma série de denúncias das estudantes à instituição.

Uma das alunas relatou que o professor Ezequiel de Souza, que leciona sociologia, começou a assediá-la em 2016 quando dirigia um projeto que ensinava xadrez, conforme depoimento registrado em um boletim de ocorrência na Delegacia Interativa de Polícia Civil de Coari a que tive acesso. Interessada em fazer parte do grupo, a aluna o procurou, mas ele teria se aproveitado do momento em que estavam sozinhos para pedir que ela lhe fizesse sexo oral.

Souza argumenta ter sido vítima de calúnia devido à disputa na eleição para a direção do campus de Coari. “A gestão em momento algum teve interesse em proteger as denunciantes, mas só quis politizar as denúncias para salvar os seus e atacar os contrários a ela”, me disse por e-mail.

Um servidor que também preferiu não se identificar contou que Antonio Roberto de Deus Carvalho, professor de matemática, enviava para uma aluna mensagens do tipo “Vamos fazer aquilo”, “Vou te dar um beijo”, “Não vá chegar em casa dizendo: mãe, beijei aquela delícia de professor”. Os prints desses diálogos foram incluídos na denúncia feita ao Ifam.

Apesar de as denúncias contra Souza, Carvalho e os outros quatro professores de Coari seguirem em andamento no Ifam, todos já voltaram à sala de aulas, com exceção de um professor que era substituto e não teve o contrato renovado. Souza foi até nomeado como coordenador de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do campus em março deste ano.

Os demais, como Carvalho, foram rebaixados ou transferidos. Ele era coordenador-geral acadêmico do campus, mas pediu afastamento do cargo em setembro e segue apenas com as aulas de matemática. Por e-mail, Carvalho disse que há uma disputa política muito forte dentro do campus e negou que responda a processo por assédio. Ele também não respondeu sobre o relacionamento que mantém com uma ex-aluna.

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Ilustração: Ana Persona/The Intercept Brasil

‘A mais pura das criaturas’

Os professores Souza e Carvalho moram junto com ex-alunas. É também o caso de Rômulo Ribeiro Machado, que leciona história no campus de Maués, a 643 km de Manaus, outro local em que pipocaram denúncias de assédio.

Machado, de 44 anos, vive com a adolescente de 17 anos desde maio, e o relacionamento gerou uma investigação no instituto. Em seu depoimento no PAD, a jovem diz que o relacionamento começou em janeiro, depois que se encontrou com o professor em uma sorveteria. Ele ainda era casado, mas se divorciou em abril. A investigação não foi concluída porque Machado está de licença saúde.

“Basta olhar para o seu perfil para se fazer ver a mais pura das criaturas, um homem bem-intencionado, sendo certo o seu grande interesse de fazer revelar ao mundo e não apenas o meio em que vive, o seu amor puro e verdadeiro pela aluna”, diz a defesa do professor no PAD, que cita uma carta do pai da aluna, anexada ao processo do Ifam, dizendo que sabia do namoro. O documento foi elaborado por Islane Marque Setubal, a advogada que no começo deste texto bradou ser “muito rara a inexperiência em moças de 16 anos”.

Para uma das professoras que acompanhou diversos casos de abusos, as famílias acabam se “tornando cúmplices”. Segundo ela, é comum os pais  enxergarem no status de um professor do Ifam uma chance para a filha mudar de vida. Depois de muito ouvir as histórias que as alunas lhe confiam, ela acredita que algumas jovens não compreendem que estão sendo abusadas e enganadas. “Elas guardam a ilusão de que tudo vai acabar bem e de que serão felizes para sempre”.

Assim como o professor Bevilaqua, de Manacapuru, o professor Machado tem renovado os pedidos de licença médica. O laudo mais recente, com validade até fevereiro, atesta “incapacidade laborativa, com necessidade de afastamento para tratamento de saúde”, mas não explica qual o problema. O questionei sobre o caso, mas o professor não respondeu ao meu contato.

Em nota, o Ifam informou que “diante do aumento dos casos de assédio”, realiza desde 2017 campanhas anuais contra o assédio e abuso sexual e que todas as denúncias são investigadas. “As cidades onde o Ifam possui campus, via de regra, são pequenas, isoladas e de difícil acesso, sendo comum todos se conhecerem, além de serem parentes, sendo necessário o deslocamento de servidores de outros campi para apuração. No entanto, o Ifam vem tratando todos os casos denunciados garantindo a efetividade da prestação administrativa”.

O instituto informou ainda que sete servidores já foram demitidos “em virtude de tais comportamentos” e que não é possível fornecer mais dados sobre os casos em andamento pois se tratam de processos sigilosos. Segundo o Ifam, todos os casos em que são confirmados abuso ou assédio são encaminhados ao MPF e à Advocacia Geral da União.

Acusados de assédio culpam quem denuncia

Culpar quem denuncia é estratégia recorrente dos acusados de assédio. No campus de Presidente Figueiredo, distante 128 km de Manaus, o professor de música Abraão de Souza Silva, também casado com uma ex-aluna, ficou afastado da sala de aula por quatro meses em 2018. Quando voltou, em outubro daquele ano, pediu punição disciplinar para as três alunas que o denunciaram.

Ele alegou que o clima estava “insustentável” e enviou um ofício à direção do Ifam acusando as adolescentes de injúria. Acabou demitido em setembro, após o fim do PAD o considerar culpado, investigação que levou mais de um ano para ser concluída. Apesar de, por lei, esses processos terem prazo de até 60 dias para serem resolvidos, passíveis de apenas uma prorrogação pelo mesmo período, são frequentes os casos das investigações que se estendem por anos, segundo relatório da própria instituição.

Por WhatsApp, Souza Silva me disse que as denúncias são “fantasia de uns esquerdopatas que pensam que tudo é assédio”. “Infelizmente, a verdade contraria a posição esquerdista deles, eu sou bolsonarista e isso incomoda eles”, acrescentou.

Em Manaus, o professor de matemática Jáderson Pará Rodrigues considerou um bom argumento de defesa alegar que uma campanha de conscientização contra assédio sexual, organizada pelo centro acadêmico, tinha “interesses político-partidários”.

Segundo relatos das alunas anexados à investigação do instituto, ele as acariciava no pescoço, na cintura e na barriga. Às vezes as beijava no rosto, muito perto da boca. Mas, para a defesa de Rodrigues, tudo não passou de uma campanha de difamação promovida por alunas que estavam descontentes com as notas baixas. O erro, disse o advogado do professor, foi apenas pensar que a melhor forma de dialogar com os alunos era através de um tratamento informal e amigável. A justificativa não colou, e ele foi demitido por justa causa por assédio sexual de menores, crime incluído no Estatuto da Criança e do Adolescente em 2017.

Infelizmente, foi uma exceção. A maior parte das “puras almas” segue suas vidas e a dar aulas como se nada tivesse acontecido.

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Importadores de armas estão rindo à toa com o bolsonarismo: vendas cresceram 359% desde 2018

Importadores de armas estão rindo à toa com o bolsonarismo: vendas cresceram 359% desde 2018

Dias após tomar posse como presidente da República, Jair Bolsonaro assinou o primeiro dos sete decretos sobre armas que ele editaria este ano. Quando canetou o decreto 9.685, Bolsonaro estava cercado de eufóricos parlamentares favoráveis à medida fazendo arminha. Mas há gente ainda mais sorridente: importadores de armas estão rindo como nunca antes na história desse país.

O aumento começou já em 2018 – ano da campanha eleitoral inflamada pelo discurso pró-armas. Neste ano, porém, com o decreto que flexibiliza a posse e a fissura no monopólio da Taurus, denunciada pelo Ministério Público por venda de armas com defeito, o número explodiu. Um relatório obtido pelo Intercept, feito com base em dados de importação de armamentos do Ministério da Economia, Comércio Exterior e Serviços, mostrou que o número de armas importadas aumentou 1.473% este ano em comparação com 2016. Naquele ano, 2.390 armas foram importadas. Só em 2019 o número subiu para 37.589.

BRASILIA, DF,  07.05.2019: O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado de deputados favoráveis à projetos de flexibilização do controle de armas, durante assinatura de decreto presidencial que flexibiliza regras para atiradores esportivos, caçadores e colecionadores de armas, no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

A alegria dos bolsonaristas na assinatura do decreto que flexibiliza a posse de armas, em maio deste ano, se estende para os importadores.

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Após certa estabilidade e quedas consecutivas em 2014 e 2015, o crescimento foi meteórico pós 2016, crescendo consideravelmente em 2018 – ano de plena campanha arminha na mão – e explodindo em 2019. Só em relação a 2017, o aumento foi de 359%.

Esse mercado de importação de armas movimentou, entre janeiro e setembro, mais de 15 milhões de dólares – aproximadamente R$ 60 milhões. A maior parte desse valor – R$ 44 milhões – foi movimentada por empresas do Rio de Janeiro, estado diariamente nos holofotes pela atuação nefasta de milícias.

O país preferido pelos importadores é a Áustria, sede da Glock, cuja pistola mais barata custa – sem impostos – em média 644 dólares, o equivalente a R$ 2,7 mil. Há também grandes importações dos Estados Unidos, República Tcheca e Argentina.

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Gráfico: João Brizzi/The Intercept Brasil

A importação de partes ou acessórios para armas seguiu o mesmo ritmo de alta. O volume passou de 3.751 quilos em 2016 para 36.873 até setembro em 2019 – quase dez vezes mais. O mercado, que faturava pouco mais de R$ 1,5 milhão (283.861 dólares), saltou para cerca de R$ 8,5 milhões (2.129.956 dólares). Em 2019, dez das 18 importações foram feitas para o Rio Grande do Sul, que comprou prioritariamente da Itália – país sede da Beretta, maior concorrente da Glock.

Embora a Taurus ainda detenha tecnicamente o monopólio de produção e comercialização de armas no Brasil, o histórico de falhas e acidentes com suas armas fez com que a legislação se flexibilizasse. Neste ano, as polícias de São Paulo e do Rio de Janeiro começaram a comprar armas de fora do país. A vencedora das duas licitações foi a Glock, que receberá R$ 35,7 milhões do governo de SP e R$ 43,3 milhões do governo do Rio para fornecer pistolas.

Rio de Janeiro, o paraíso das armas

Os dados do Ministério da Economia, Comércio Exterior e Serviços mostram que o volume de armas que chegou ao Rio de Janeiro neste ano é quase o total importado em 2018 em todo o país. Cerca de 27.430 armas chegaram ao estado este ano – no Brasil, no ano passado, foram 28.319.

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Gráfico: João Brizzi/The Intercept Brasil

Quando uma arma é apreendida, saber seu calibre, marca e origem, é essencial para descobrir se ela foi, por exemplo, desviada de uma empresa de segurança privada que a comprou legalmente. E as estatísticas da Polícia Federal mostram que, entre 2006 e 2016, 30% de todo o arsenal de empresas privadas de segurança – compradas legalmente – foram parar na mão de criminosos.

Quando o Instituto de Segurança Pública, o ISP, foi criado para monitorar estatísticas de crimes no Rio de Janeiro, os pesquisadores se esforçaram para detalhar melhor o armamento. “Na época se mapeou todo armamento apreendido no Rio de Janeiro, os países de origens, quais as possíveis rotas para que essa arma chegasse ao Rio de Janeiro, quais os locais onde eram encontradas e quais as munições que estão sendo utilizadas”, me disse Ana Paula Miranda, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense e uma das idealizadoras do ISP. Hoje, esse esforço se perdeu.

O setor armamentista lucra como nunca antes, temos mais armas nas ruas, mas não temos nenhuma clareza sobre o que acontece com elas depois que entram no Brasil.

Entender a chegada de armas de grosso calibre, cada vez mais comuns, ajuda a entender a organização do crime no estado, até então centralizado na região metropolitana. “Era impensável há cinco, sete anos vermos criminosos utilizando fuzis ou outras armas de grosso calibre na Baixada Fluminense. Em 2019, o uso se tornou corriqueiro”, me disse Pablo Nunes, subcoordenador do Centro de Estudos da Criminalidade. Para ele, esse pode ser um indício que armas pesadas estão chegando pelo interior. “Alguns municípios registraram a primeira apreensão de fuzis em toda a história, revelando que esse processo tem se interiorizado com certa velocidade. Ter dados para compreender essas demandas por armamentos mais pesados ajuda a jogar luz nessas novas dinâmicas e, muitas das vezes, invisíveis aos analistas e gestores públicos que se concentram na capital do estado”.

O ano ainda não fechou e o ministério não consolidou seus dados. Mesmo assim, já dá para saber que, com as meias informações disponíveis, vai continuar difícil para os pesquisadores estabelecerem estratégias para enfrentar o desvio de armas, como um simples cruzamento de informações. O setor lucra como nunca antes, temos mais armas nas ruas, mas não temos nenhuma clareza sobre o que acontece com elas depois que entram no Brasil, mesmo com a evidência de desvios detectado pela Polícia Federal.

Os esforços outrora empenhados para se entender como as armas param nas mãos de milicianos e traficantes não são mais prioridade. Um estado como o Rio de Janeiro, que possui um contexto de segurança completamente específico, deveria ter políticas específicas. Mas isso, claro, caso o plano fosse inibir o crime.

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Monday, 2 December 2019

Britain’s Secret War With Russia

Tucked away in a drab industrial estate on the outskirts of the Swiss town of Spiez lies a multistory concrete office block flanked by a parking lot and a soccer field. A modest gate with a small plaque is all that greets visitors. A river rolls behind the building, fed from the peaks of the Blüemlisalp massif above. This is the Bernese Oberland, the corner of Switzerland where James Bond met Blofeld in a revolving mountaintop hideaway; where Sherlock Holmes plunged to his death.

The building in question, an outpost of Switzerland’s Federal Office for Civil Protection, might be unassuming—home to just 98 academics, engineers, apprentices, and technicians—yet its occupant, the Spiez Laboratory, is world-renowned. The elite facility focuses on global nuclear, chemical, and biological threats, and is one of a limited number of sites designated by the Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons (OPCW) to conduct research and analysis. Safely under the protective cloak of the country’s diplomatic neutrality, Spiez Laboratory carries out its work with little fanfare or controversy.

Over the course of a few months in 2018, however, this gentle existence was upended, as the lab became caught in a cold war between Russia on one side and the United Kingdom and the West on the other, fought in public and in the shadows, online and in person, occasionally flashing hot in deadly fashion. From the attempted assassination of a double agent in a sleepy English city to the expulsion of scores of Russian diplomats from Western capitals, this fight would grow and morph, drawing in a chemical-weapons attack in Syria and rolling scandals about Russian sports doping.

Through it all, Russia and Britain went toe-to-toe in an international intelligence and PR battle, one in which each landed blows, exposing fissures in their respective systems and societies. Yet, as NATO leaders meet in London this week to discuss the future of the military alliance 70 years after its founding, other lessons emerge, with implications for the wider contest between Russia and the West, which are vying for influence, respect, security, and raw geopolitical power.

Whereas NATO was founded to unite the Western world against the threat of conventional military aggression by the Soviet Union, eventually contributing to the Communist bloc’s demise, the alliance is today confronted with a recalcitrant Russia that seeks to leverage propaganda and disinformation to sow confusion and discontent, and that exhibits a willingness to use its traditional military force and intelligence agencies to expand its influence. It is a Moscow that is able to project disproportionate power—despite being dwarfed in economic size and resources by even mid-tier Western countries—thanks to a web of international influence, aggression, tactical cunning, and criminality.

At the same time, NATO and its members are divided, distracted, and shorn of a coherent strategy to deal with Russia’s efforts. The grouping’s superpower, the United States, is led by a president whose commitment to the alliance’s underlying principle of collective defense is in doubt; its other significant members are consumed by domestic strife (Britain), questioning NATO’s strategic future (France), or lack the military might and political will to fill the gap (Germany). And faced with a new array of threats from Russia, the alliance has more than once been caught unawares, at times thanks to its own unforced errors but also in no small part due to a lack of long-term vision to do anything other than de-escalate tensions. Despite Russia deploying a chemical weapon on the streets of a NATO member (also Britain), the country’s international freeze is already beginning to thaw, its economy is growing, and its leadership, on the face of it at least, remains secure. It has successfully expanded its influence in the Middle East and has secured its illegal land grab in Crimea.

The period from the attempted murder of the former Russian spy Sergei Skripal in March 2018 to a major Western counterblow exposing Moscow’s behavior in October 2018 offers a window not just into these challenges, but also into others that are only just emerging as technological advances change the very nature of information warfare. To understand how the battle played out, I spoke with several current and former officials—government aides, communications advisers, and members of the intelligence services—as well as politicians in London, most of whom would speak only on the condition of anonymity in order to discuss sensitive intelligence matters. I also consulted security, diplomatic, and cyber experts. (The Russian embassy in London declined to respond to a series of detailed questions I sent them, instead referring me to a statement on its website in which Moscow denies any involvement in the poisoning and claims it was an act carried out by the British secret services.)

Unlike a conventional battle, though in keeping with much of modern conflict, there are no obvious measures to determine who won and who lost. The months-long information war that Russia fought with Britain was one in which mistakes were difficult to judge and success hard to immediately quantify.

This is a story about disinformation and spycraft. It is also a story that again and again returns to the tiny Swiss town of Spiez.


The details of the Skripal poisoning are well known: On the night of March 4, 2018, the former Russian spy, who was living in retired exile in Britain, was found alongside his daughter, who was visiting from Russia, foaming at the mouth on a park bench in Salisbury, 90 miles southwest of London.

Eight days later, then-British Prime Minister Theresa May formally accused Russia of carrying out the attack. Britain’s Porton Down military-research facility—which, alongside the Spiez Laboratory, is one of the centers of expertise accredited by the OPCW—had determined that the Skripals were poisoned with a nerve agent called Novichok. The chemical weapon, May told Parliament, had been smuggled into the country by two hitmen working for Russia’s military-intelligence agency, the GRU. In response, Britain and its allies in 28 countries expelled more than 150 suspected Russian spies. Russia protested its innocence and denounced the Western response. (Skripal and his daughter ultimately survived. Another woman, Dawn Sturgess, died, after spraying what she thought was perfume, but was in fact Novichock, onto her wrists, and a police officer was hospitalized while investigating the poisoning of the Skripals.)

Details of the information war that ensued are only now emerging.

A tent covers the park bench where former Russian intelligence agent Sergei Skripal and his daughter Yulia were found after they were poisoned, in Salisbury, England.
A tent covers the bench in Salisbury where Skripal and his daughter were found after they were poisoned. (Henry Nicholls / Reuters)

By the time May made her allegation in Parliament, a Russian campaign to discredit it was already in full swing. In just the first week after the attempted assassination, according to five British officials who spoke with me, the U.K. government tracked 11 alternative theories about the Skripal poisoning that all originated in Russia. A March 2019 report by King’s College London found that Russian-government funded outlets RT and Sputnik alone were responsible for 138 separate and often contradictory narratives about the Skripal poisoning in the four weeks following the incident. These included claims that the poison came from Porton Down; that the Skripals were never, in fact, poisoned; even that the poisoning was designed to distract from Brexit. Russian media also speculated variously that it was a British plot, an American plot, a Ukrainian plot, or a plot to frame Russia. May told members of Parliament that she had been personally accused of inventing Novichok.

The onslaught of such stories in the weeks and months after the Skripal attack—and their success in reaching a wide and receptive audience—emerges in lists of the most viral social-media content from that period. This data was gathered for The Atlantic by the online monitoring company NewsWhip, which tracks how many “interactions” a particular news story has garnered on social media sites like Facebook, Twitter and Pinterest—measured by the number of likes, shares or comments it has received. In some cases, there appeared to have been genuine orchestration of these efforts, but other instances show opportunism, with Russia-friendly outlets jumping on apparent contradictions in Britain’s public statements.

Moscow’s goal, according to U.K. officials tasked with monitoring and counteracting the Russian propaganda war, was simply to flood social media with false narratives and information that would cast doubt on the established British and Western positions, not with the goal of offering one particular alternative explanation, but simply to muddy the waters sufficiently to make people question their own government. Russia denies the allegation and accuses the U.K. government itself of manipulating the media with leaks and censorship.

This Russian strategy is wearily familiar to former Soviet satellite states in Eastern Europe (as well as the United States, during the 2016 presidential election), officials and experts I spoke with said. And early in the summer of 2018, there were concerning signs for London that it was having some effect. Internal government polling carried out in the months after the poisoning showed that a significant proportion of the population did not believe the British government’s assertion that Russia was behind the attack, according to an official briefed on the data, with the most skeptical being those aged 18 to 24. A September 2018 government memo, shared with The Atlantic, that distilled the results of polling showed that the “perception of Russian culpability” stood at just 55 percent. This was down from a peak of 65 percent at the end of March—the month of the attempted murders. (One of May’s aides told me that this lack of trust in government is now a major structural challenge when dealing with incidents of national security.)

Some of those I spoke with insisted that such setbacks were only temporary, but all largely agreed that Russia reacted quickly and effectively. “There was a private admission that we had lost the information battle,” one senior U.K. government official involved in the British counterattack told me. “We had ceded the ground. The Russians were just really quick off the mark.”


Numerous stories by outlets such as RT and Sputnik promoted dueling theories as to who carried out the Skripal poisoning, but when it comes to sowing confusion, one story stands out, and Spiez was at the center of it.

On April 14, 2018, RT published an article that would go on to become the most viral news story in 2018 about the incident as measured by online interactions, NewsWhip data shows. According to RT, Russian Foreign Minister Sergey Lavrov said that a “Swiss lab” had discovered that a different toxin was used to poison the Skripals—not Novichock, but BZ, which was, as RT put it, “in service” in the United States, Britain, and other NATO countries.

The report would go on to be shared on social media by RT as well as by accounts such as the WikiLeaks Task Force, which describes itself as the “official @WikiLeaks support account,” verified with a blue checkmark on Twitter. The story would rack up 137,360 social-media engagements, still the most of any story published on the Skripal affair.

A collage of images including Boris Johnson and Sergey Lavrov.
Illustration by Ricardo Santos*

And yet the article was entirely misleading. Spiez was indeed one of a small number of international centers chosen by the OPCW to confirm the conclusions reached by Porton Down, and it did find a different toxin from Novichock. But that was part of the process: After receiving samples from the Skripal poisoning from the U.K., the OPCW, following protocol, added a new substance into the batch for quality control—a test, in effect, to ensure that Spiez’s and other laboratories’ results were accurate. If they did not find the added element, then whatever else they found could not be trusted. The toxin added by the OPCW was a derivative of BZ.

It would be surprising if Lavrov was not aware of this distinction. On April 11, the OPCW, of which Russia is a member, confirmed the British findings in a report that named the control substance. Was it a simple misstep on the foreign minister’s part? How did he know that Spiez had done the testing? That the Swiss lab was among those chosen by the OPCW to confirm Porton Down’s conclusions was kept confidential as per the OPCW’s security protocols, a rule seen as “sacrosanct,” according to one of the U.K. officials who spoke with me. Andreas Bucher, a spokesman for Spiez, told me that the research facility did not even know which other sites were used to test the findings. The Russian embassy in London declined to comment on the incident when I asked them about it.

Unsure of how to respond without confirming that it was one of the laboratories chosen by the OPCW, something it was not allowed to do, Spiez initially published a tweet saying that it could not comment on Lavrov’s assertions, and then later released another saying that it had “no doubt Porton Down has identified Novichock.” Lavrov claimed to be quoting from Spiez’s report on its tests, but Bucher said he had falsely cited the report. “We don’t write prose,” he said. “We write formulas.”

The U.K. government itself did not respond to Lavrov’s claims. The Spiez tweet partially correcting the story received only about 1,000 retweets—less than 1 percent of the engagements recorded by the original RT story. Regardless, the claim was out there, being shared across the world, even though the OPCW itself had said that its laboratories had confirmed Britain’s original findings.

If the most viral Skripal-related story illustrates how Moscow’s propaganda machine looked to actively plant disinformation, the second on that list highlights how Russia was able to take advantage of unexpected openings as well.

The Independent, an online British outlet, on April 3 published a story based on an interview given to Sky News by Gary Aitkenhead, Porton Down’s chief executive. Aitkenhead said that the British facility had confirmed that the toxin used in Salisbury was Novichock, but that its scientists “have not identified the precise source” of where it came from. Just days earlier, though, then–Foreign Secretary Boris Johnson had claimed that Porton Down had confirmed that the nerve agent originated in Russia.

The apparent contradiction exploded into life online, with the Independent story getting picked up and promoted by Kremlin supporters, as well as by the Russian embassy in Skopje, North Macedonia, an RT journalist in North America, and even a Facebook account, “San Diego For Bernie Sanders 2020,” eventually receiving 93,999 interactions on social media, according to NewsWhip, a high figure even for a story that was dominating the news. Britain rushed to repair the damage after a 10 Downing Street rapid-response unit, which monitors web traffic and works closely with the national-security communications team, noticed the story gaining traction online. (One security official told me that government analysis of social media showed that Salisbury-related posts made up 12 percent of the entire U.K. digital conversation on April 3, the second-highest figure during the entire crisis, after the day May blamed Russia for the attack.)

Later that day, Porton Down tried to clarify Aikenhead’s remarks, tweeting that the facility’s “experts have precisely identified the nerve agent as a Novichok. It is not, and has never been, our responsibility to confirm the source of the agent.” Security officials contacted journalists to explain the discrepancy, with calls made to Sky News in particular with a request for a public clarification. A week later, the U.K. released a letter sent from May’s national-security adviser to the secretary-general of NATO, which formally laid out the charges against the Russians.

The episode is seen by those inside Britain’s security communications team as the most serious misstep of the crisis, which for a period caused real concern. U.K. officials told me that, in hindsight, Aikenhead could never have blamed Russia directly, because that was not his job—all he was qualified to do was identify the chemical. Johnson, in going too far, was more damaging. Two years on, he is now prime minister.


The aftermath of the Skripal poisoning illustrated not only a PR offensive waged by outlets sympathetic to Moscow, but also the breadth of the Russian state’s capabilities and efforts to include its diplomatic corps as well as its intelligence agencies.

At the same time the media blitz was taking place, the Russian embassy in London was writing letter after letter to the U.K.’s Foreign Office with scores of detailed questions that British officials argued were designed to tie up their time and attention. From March 6—two days after the Skripal assasination attempt—to February 18, 2019, the embassy fired off dozens of note verbales, or official diplomatic correspondence, with 41 requests and 57 questions. (The Russian embassy has published a list of these demands.) Inside the U.K. government, an official told me, this barrage was referred to as a “diplomatic DDoS attack,” a reference to the cyberstrike in which a server is shut down simply by overwhelming it.

At the same time, a surge in malign Russian bot activity was detected online, in which social-media accounts were activated to amplify and spread messages. In the six weeks following the Skripal poisoning, through to the April 13 air strikes on Syria launched by the U.K., U.S., and France in response to Syrian President Bashar al-Assad’s use of chemical weapons, British officials say they calculated a 4,000 percent increase in this type of activity.

The GRU, the same organization that dispatched the two hitmen to Salisbury, also played a role, and, once again, Spiez was at the heart of it.

In May, 2018, OPCW facilities around the world received an email apparently from the Spiez Laboratory inviting them to a conference for specialists in chemical and biological warfare. The conference itself was real, the third such meeting organized by the Swiss research site, and the email was sent in the name of the Swiss Federal Department of Defence, the government agency responsible for the laboratory. Attached was a Word document that purported to contain information about the meeting.

There were, however, small giveaways that all was not right: The shade of red on the Swiss flag in the top left corner of the document was slightly off, and some formatting in the letterhead was wrong (the abbreviation FOCP—for Federal Office for Civil Protection—was used on the wrong line). In fact, the Word document contained malware that would embed itself into any computer that opened the file. But it would take weeks for anyone to notice, and only in July 2018 did Spiez issue a warning on its Twitter account that an email had been sent in its name without its knowledge, one that was actually a sophisticated spear-phishing attack, a cyber Trojan horse known as an advanced persistent threat, in which a computer is accessed by stealthily giving attackers full control of the compromised host’s network.

Who was behind the attack—and what they hoped to achieve—has never been confirmed. The Russian embassy declined to address this specific case when I asked them about it. Kaspersky, a U.S. cybersecurity firm that analyzed the incident, told me that it did not know for certain who the hackers were, whether they had been successful, or even what their goal was. In the shadowy world of spycraft, it’s almost impossible to be sure about what is a false flag and what is real, the company said.

Britain’s National Cyber Security Centre is less circumspect, however, assessing “with high confidence that the GRU was almost certainly responsible.”


Through a special “link door” from 10 Downing Street, deep inside the Cabinet Office in central London, lies the U.K. government’s main emergency-response center: Cabinet Office Briefing Room A—or Cobra. This is the British equivalent of the White House Situation Room. It is where emergency meetings are held at times of crisis, to coordinate strategy in the most secure environment.

Attached to Cobra are a number of boardrooms where officials can listen in to what their ministers are discussing inside. Throughout the spring and summer of last year, a group of some of the most senior government communications officials, dubbed “Comms Cobra,” met daily to discuss how to respond to the Russian disinformation blitz. They were in full crisis mode—not only was the Russian campaign overwhelming in its scope, but Russia seemed to be one step ahead of the U.K. as well.

Among the measures the group took was to tighten the circle of who was in the know. At one point in the summer, the number of people, government departments, and agencies involved in responding to the Salisbury case was huge. The Department for Environment was leading the clean up and the Home Office was dealing with security, while London’s Metropolitan Police, Britain’s intelligence services, and the local police force were investigating. Salisbury’s local council, the Foreign Office, Downing Street, and the Cabinet Office were involved too.

New processes were put in place, raising the level of official secrecy on some communications and resulting in often cumbersome procedures. Instead of having a single phone number for meeting participants to dial in to, for example, the Metropolitan Police—which leads Britain’s national counterterror and security operations—began holding conference calls by dialling each individual separately, one after the other, infuriating officials who were left waiting on the line for half an hour before discussions could start.

On September 5, 2018, Britain finally made its move. May told the House of Commons that the two Russian spies responsible for the Skripal poisoning had been identified, news that, because of the tightened communications, only a select number of cabinet ministers were even aware of. She outlined which flight the pair had arrived on, when and how they visited Salisbury, when they arrived at the Skripals’ house, and which flight they took back to Russia. CCTV footage was released of the two at various stages of their trip. Traces of Novichock were even found in their shared hotel room, May said. Hours earlier, the Metropolitan Police had held a “lock-in” with security journalists to brief them on the findings. (The Russian embassy claims the CCTV recording of the two Russians “only confirm the fact of their visit to Salisbury and do not point at any wrongdoings.”)

Two men wearing hats and jackets walk down a sidewalk, as captured on CCTV footage.
The two men accused of poisoning Skripal and his daughter are seen on CCTV in Salisbury on the day of the attempted murder. (Handout / Reuters)

The effect of the surprise information barrage was dominance online. Only two of the 10 most viral stories in the weeks following the announcement were sympathetic to Russia, according to NewsWhip. Finally, officials recalled, it felt as though the U.K. was the aggressor. “This was all kept secret to put the Russians on the hop,” one told me. “Their response was all over the place from this point. It was the turning point.”

Amid an apparent failure to counter the British case, the accused hitmen appeared on Russian state media claiming that they had visited Salisbury on a sightseeing trip. Inside the Cabinet Office in Westminster, an official said, Britain’s security communications team sat “glued to the telly” watching their claims but ultimately decided not to react—across Europe, satirical TV shows and websites were picking up the story and making fun of it.


If September was the month Britain wrested control of the Skripal narrative, October was when it rocked Russia with a significant blow of its own, one that was months in the making.

On April 10, a month after the poisoning, four men arrived in the Netherlands on diplomatic passports. Three days earlier, Assad, a key ally of Russia, had launched a chemical-weapons attack on a suburb of Damascus, and the OPCW, which is based in The Hague, was tasked with investigating not only the Skripal poisoning but also the Syrian chemical-weapons attack. The men, all Russian intelligence officers, had been assigned a hacking operation in which they were to target the OPCW’s networks by sneaking in via Wi-Fi connections.

From their arrival, however, the group (subsequently identified as belonging to GRU Unit 26165) was being monitored by the Dutch security services, and on April 13, the four were arrested. Two of them had left their equipment in the trunk of a rental car parked outside the OPCW’s headquarters. For the Dutch, British, American, and Swiss secret services—all of which were involved in the operation—they had obtained a treasure trove.

The abandoned equipment revealed that the GRU unit involved had sent officers around the world to conduct similar cyberattacks. They had been in Malaysia trying to steal information about the investigation into the downed Malaysia Airlines Flight 17, and at a hotel in Lausanne, Switzerland, where a World Anti-Doping Agency (WADA) conference was taking place as Russia faced sanctions from the International Olympic Committee. Britain has said that the same GRU unit attempted to compromise Foreign Office and Porton Down computer systems after the Skripal poisoning.

The arrests were not immediately made public, though. On October 4, the U.K. published a list of transgressions by the Russian state and specifically the GRU unit that was caught. That morning, the British ambassador to the Netherlands joined the Dutch defense minister at a press conference in The Hague where they lifted the lid on the attempted Russian hack of the OPCW. In the afternoon, the U.S. Department of Justice announced charges against seven GRU agents linked to the Dutch investigation, accusing them of hacking into WADA and the OPCW, and of cyberattacks aimed at a U.S. nuclear-energy facility. Security officials in London told me that everything was carefully coordinated and timed to coincide with the U.S. indictments. A joint statement from the British and Dutch prime ministers was released to ram home the message. The Russian embassy declined to comment on the operation or the U.S. indictment.

During the week of the OPCW press conference just one of the top 25 most viral stories was from a pro-Russian outlet—and even this was a relatively straightforward piece from RT. “There were some signs that we had landed a blow,” one senior security official told me.

The OPCW was not the only target on the unit’s itinerary on its trip through Europe. According to the U.S. indictment, also in the GRU team’s possession on the day they were arrested were train tickets to Basel, Switzerland. American authorities allege that they would have then traveled onward—to Spiez.


Having been at the forefront of the international PR battle with Russia, the U.K. feels that it is now well placed for any future battles. It has created a national-security communications team based at the heart of government in 10 Downing Street and the adjoining Cabinet Office. Communications strategy is now seen as being part of national-security strategy.

Nina Jankowicz, a fellow at the U.S.-based Wilson Center specializing in disinformation who has advised the Ukrainian government on how to combat the Russian threat, told me that the U.K. effort was “leaps and bounds ahead of what we had seen before.” British officials did a good job of highlighting “all the absurd claims” coming out of Russia, she said. “The fact the U.K. system was able to respond under such stress shows the system was working as it should,” she added, pointing in particular to Britain leading the coordinated expulsion of diplomats. “We’ve not seen anything like it since the Cold War. The U.K. is filling in the leadership gap where the U.S. now cannot—or will not.”

Still, if Britain won a victory, it was tactical, not strategic. Officials say the problem for Western countries is that while Russia might be a relative economic minnow, it has continued to fund its national-security state to superpower levels while NATO has become more and more reliant on the U.S. for its defense since the end of the Cold War. Russia is also aided and abetted by a willingness to ignore international law, norms, and conventions—and the West’s apparent refusal to do the same in return. (Russia’s intervention into British politics remains a live issue, after the U.K. government refused to publish a report into Moscow’s infiltration before Britain’s election this month.)

Even more fundamentally, in the absence of any coordinated Western strategy to forcefully respond to a crisis sparked by limited forms of Russian aggression, Moscow has been able to achieve a significant expansion of its influence. By moving quickly, Russia changed the rules of the game on the ground before the West could react. Whether in Syria, Crimea, or elsewhere, Russia has filled a vacuum left by American withdrawal or indecision—in some cases literally, by moving troops to occupy territory abandoned by the U.S.—meaning that any subsequent retaliation from Washington comes with an even greater risk than before, leading to further inaction. The effect, as in Syria, is to hand victory to Russia for as long as it can sustain the cost of Western sanctions or diplomatic isolation.

A similar story played out in Britain, where the full reaction to the Skripal assassination was slow-moving, taking months to play out. The cost imposed on Moscow—the loss of spies and networks around the world, as well as the damage to the Russian intelligence service’s reputation for efficiency and skill—was serious, but appears to have been absorbed. Moscow may have gone relatively quiet about Skripal (an October tweet by the Russian embassy in London linking to a Guardian story about Donald Trump expressing skepticism that Moscow was behind the poisoning is a rare recent intervention), but it has not changed its behavior.

And yet, the West has already been showing signs that it wants a thaw in relations. In August, the leaders of the world’s most powerful Western countries, the G7, met in Biarritz, France, where Trump suggested that Russia could be allowed back into the club. And he’s not alone in seeking to soften his country’s stance. The same month, French President Emmanuel Macron gave a speech saying that it was time for Europe to “pacify and clarify our relations with Russia,” arguing that pushing Moscow away would be a “profound” strategic error, and setting out opposition to any further economic sanctions on Russia. He has since repeated that message in an interview with The Economist and again last week in the run up to today’s NATO summit.

Those sanctions (which, along with Russia’s expulsion from the G8, were the result of the country’s annexation of Crimea) hit the Russian economy, but far from strangled it. In 2018, Russia’s GDP grew 2.3 percent. While growth is projected to slow in 2019 and 2020, Russia’s economy is nevertheless expected to continue to expand, according to the International Monetary Fund.

Since the October announcement, the U.K. has seen the Russian threat ease off, only for it to be replaced by other foreign-policy priorities: The future of the 2015 Iranian nuclear deal is uncertain and Tehran is testing the West’s collective patience; North Korea has resumed ballistic-missile tests; and months of pro-democracy protests in Hong Kong have raised the specter of China taking more aggressive steps there.

But despite alleged British confidence—and clear Russian amateurism on occasion—it is clear that Moscow landed real blows in its 2018 communications battle with London. The U.K. was at times blindsided, fell into traps, made mistakes, and saw a worrying subsection of public opinion run toward conspiratorial skepticism. It is beyond doubt that Russia had some success muddying the waters of blame throughout the summer of 2018.

That may well have been enough for the GRU. With campaigning for the 2020 U.S. presidential election now well under way, the focus of Russian disinformation efforts might once again shift to the United States. Is it prepared for what is to come? What did Moscow learn from its six-month propaganda war with Britain?

“No matter what action you take against Russian intelligence services, they are going to put a massive amount of resources into a divergence campaign,” said Bill Evanina, the head of counterintelligence for the U.S. government. “Vladimir Putin's most amazing trait is his ability to deny that today is Thursday, and to convince people of that."

In Spiez, they know what that is like. “These people had us in the crosshairs,” Bucher told me. Who’s next?


Mike Giglio contributed reporting.

* First collage: Andrei Nekrassov, Getty, Max Ryazanov, Reuters, Shutterstock, Steve Taylor/SOPA Images, and Toby Melville.

* Second collage: Chris J Ratcliffe, EuropaNewswire/Gado, Getty, and Reuters

Sunday, 1 December 2019

Vale aproveitou pânico em MG para conseguir autorização para obra inviável que beneficia uma de suas minas

Vale aproveitou pânico em MG para conseguir autorização para obra inviável que beneficia uma de suas minas

Às 14h de um sábado, no dia 18 de maio, advogados da mineradora Vale entraram com uma liminar em caráter de urgência no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Eles pediam livre acesso às terras da Gandarela Minérios Ltda. e de “todos os terrenos na região do Complexo Minerário Mina Gongo Soco”, a mais de 60 km de Belo Horizonte – ou seja, licença para desmatar e abrir um buraco para desviar lama tóxica para o local. O motivo: fazer obras de emergência para, supostamente, evitar uma tragédia no caso do rompimento de uma barragem da empresa na região, o que foi descrito pelos advogados da mineradora como um “risco iminente de calamidade pública”. Às 23h40, com um plano genérico sobre o que pretendiam fazer para evitar o pior, receberam autorização do juiz de plantão Carlos Pereira Gomes Júnior para iniciar a obra.

Os trabalhos começaram a todo vapor, e os moradores da pequena André do Mato Dentro descobriram, com as dezenas de ônibus repletos de operários que começaram a chegar ao povoado, que a Vale pretendia abrir um vão no monte que separa a barragem de Gongo Soco do vilarejo. Mais de metade da lama tóxica contida na estrutura em risco seria escoada por esse vão até uma gigantesca caixa de concreto que seria construída na comunidade, um distrito rural da cidade de Santa Bárbara. O resto seguiria rumo aos povoados de Piteiras e Socorro, no município de Barão de Cocais, evacuados em fevereiro por risco de rompimento.

No dia 26 de julho, com quilômetros de vegetação devastada e mais de uma dezena de moradores longe de suas casas, as obras foram encerradas repentinamente. O motivo: a Vale ignorou um monte, visível a qualquer um que passe pelo local, bem no meio do caminho entre a barragem e André do Mato Dentro. A obra de emergência fracassou.

A própria mineradora admitiu que abriu o buraco e desmatou sem ter garantias técnicas de que sua proposta funcionaria. Ao comunicarem à justiça o fim das obras, representantes da Vale disseram que o desmatamento foi “indispensável”. Mas a empresa só de deu conta da magnitude do problema depois de remover a vegetação: “verificou-se que as condições geológico/geotécnicas eram na realidade bem mais desfavoráveis do que as previstas”, diz o ofício da empresa. No documento, a mineradora reconhece que seu plano foi “inviabilizado”.

Uma cidade marcada para morrer

A justiça mineira mobilizou o apoio dos Bombeiros, Defesa Civil e Polícia Militar para ajudar na evacuação da área, com pouco menos de 50 habitantes.

Foto: Isis Medeiros/The Intercept Brasil

Sair, por bem ou por mal

Na decisão-relâmpago de 18 de maio, o juiz Carlos Pereira Gomes Júnior estipulou multa diária entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão a qualquer morador que criasse “empecilho, ou qualquer forma de obstáculo” às ações da empresa. Na mesma decisão, a justiça mineira mobilizou o apoio dos órgãos de segurança do estado, como bombeiros, Defesa Civil e polícia militar para ajudar na evacuação da área, com pouco menos de 50 habitantes. Pelo menos oito propriedades foram transformadas, do dia pra noite, em um imenso canteiro de obras, com intenso fluxo de trabalhadores, maquinário pesado e moradores sendo obrigados a deixarem suas casas.

Parte dos moradores da zona afetada resistiu às investidas, apesar do despacho de Gomes Júnior. “Quando começaram [as obras], a Defesa Civil veio e disse que tinha de sair, que não tinha jeito, que ia sair dali ‘por bem ou por mal’. Teve gente que se recusou… estamos por aqui até hoje, então a gente estranha, né?”, me disse José Mendes, de 63 anos.

Mendes foi um dos proprietários incluídos no programa de recuperação ambiental sugerido pela Vale à justiça em junho. Ele mora com sua família ali há uma década e diz que pouco se importa com qualquer tipo de indenização que a mineradora possa oferecer. “Se me obrigarem a sair, se tiver de ir pra cidade, pode ter certeza que eu não aguento muito. Se me jogam na cidade, acho que morro rapidinho”.

Além do maquinário trabalhando 24h por dia, a mineradora também manteve a postos um time de advogados para refutar todas as ações contrárias à obra em André do Mato Dentro. Durante a construção, em 7 de junho, a Vale protocolou ofícios no cartório de imóveis de Barão de Cocais para identificar três propriedades atingidas pelas obras. No topo de cada documento, há a frase “quem não registra não é dono”, seguida do artigo 1.245 do Código Civil.

Visitei a região e testemunhei um rastro de devastação em André do Mato Dentro.

Proprietário de um sítio de pouco menos de 100 hectares no vilarejo, Célio de Freitas Gonçalves é um dos moradores que, segundo a Vale, “não é dono” de terras na área do canteiro de obras e, portanto, não teria o direito de questioná-la. O estranho é que Célio é um dos três proprietários citados pela mineradora no pedido à justiça, que autorizou os trabalhos em 18 de maio: é em sua propriedade que seriam depositados os mais de 3 milhões de metros cúbicos de lama desviados para André do Mato Dentro. É como se fossem despejadas 1.200 piscinas olímpicas repletas de lama tóxica em sua fazenda.

Oficialmente, seu sítio fica na cidade de Santa Bárbara – André do Mato Dentro, uma comunidade rural, é um distrito do município. Mas a mineradora usou uma declaração do cartório de imóveis na cidade vizinha de Barão de Cocais em que o tabelião afirma que Célio não tem terras na cidade para sugerir que ele não possui propriedades na área atingida. A manobra fica clara em um ofício apresentado pela Vale à justiça estadual no dia 7 de junho.

Visitei a região e testemunhei um rastro de devastação em André do Mato Dentro, no encontro com povoados como Cruz dos Peixotos e Córrego do Arroz. A estrutura planejada pela mineradora ficaria ainda às margens do córrego Capim Gordura, ameaçando o abastecimento de água da região e, num cenário mais amplo, dos mais de 4 milhões de habitantes de Belo Horizonte e sua região metropolitana. O córrego faz parte da bacia do Rio Doce – contaminado desde o desastre de Mariana e que também abastece a capital mineira. A Vale, no entanto, insiste que as obras se restringiram a Barão de Cocais.

Uma cidade marcada para morrer

Com matas derrubadas e moradores persuadidos a deixarem suas casas, as obras em André do Mato Dentro duraram exatos 70 dias.

Foto: Isis Medeiros/The Intercept Brasil

Planos inviáveis, sacrifícios mal explicados

Para fazer a tal caixa de concreto, a mineradora tinha um imenso desafio de engenharia: superar um desnível de mais de 60 metros entre a barragem e o terreno onde a caixa seria escavada. Uma operação tão violenta como essa causa abalos de terra em um terreno delicado, afinal a barragem de Gongo Soco está em ‘risco máximo’ de rompimento desde 22 de março. Um abalo mais forte poderia levar a estrutura ao colapso, a exemplo do que ocorreu em Mariana e Brumadinho.

“Não faz sentido a Vale justificar suas ações e dizer que toda cautela é necessária enquanto fazia obras que, como foram propostas, precisam de explosões e do uso de dinamite para abrir o tal canyon [o vão] no meio da serra até o córrego”, me disse Maria Teresa Corujo, parte do Movimento pela Preservação da Serra da Gandarela.

Não é a primeira vez que Corujo denuncia a Vale. Ela foi a única conselheira da Câmara de Atividades Minerárias de Minas Gerais a votar contra a ampliação da mineração da empresa em Brumadinho, como mostramos no dia do rompimento da barragem da mina do Feijão. “Parece que a magnitude dos seus erros, a revelação das mentiras e toda a infiltração por dentro das estruturas do poder público, nada disso serviu de lição pra Vale”.

Com matas derrubadas e moradores persuadidos a deixarem suas casas, as obras em André do Mato Dentro duraram exatos 70 dias. No pedido inicial à justiça, a mineradora já dava indícios de que seu plano não passava de uma aposta. “A ruptura [de um paredão interno da mina Gongo Soco], em si, não representa risco imediato”, admitem os advogados da Vale no documento. Apesar disso, eles disseram que, por causa da urgência, não havia sido possível “individualizar” as obras – ou seja, definir o que exatamente seria feito. No pedido que deu sinal verde aos trabalhos, aprovado pelo juiz, constavam apenas coordenadas geográficas de onde aconteceriam as intervenções e uma lista com estruturas a serem instaladas.

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Ao longo das obras, não foram divulgados à população mapas de movimentação de terra ou relatórios técnicos de monitoramento da barragem para comprovar o seu risco de colapso. Por isso, há dúvidas sobre o real risco de segurança da barragem informado pela Vale.

O governo de Minas Gerais, liderado por Romeu Zema, do Novo, e a justiça estadual acompanharam os trabalhos de longe. Durante os mais de dois meses, a secretaria de Meio Ambiente mineira foi a campo fiscalizar as obras em André do Mato Dentro uma única vez, em 10 de junho. As vistorias eram feitas, em geral, por meio de sobrevoos de helicóptero ou via imagens produzidas por drones, satélites e aeronaves.

Obras como essa exigem análises rigorosas, como a apresentação de estudos de impacto, projeto detalhado das intervenções e divulgação dos danos à população, à fauna, à flora e ao solo em si. O tempo de análise pelos órgãos ambientais pode levar meses, dependendo da complexidade dos trabalhos propostos. No caso de André do Mato Dentro, a própria empresa reconheceu que a operação impunha “dificuldades geológicas”. Usando a urgência como desculpa, a Vale não apresentou nada disso, e o governo estadual aceitou que as compensações pela devastação fossem definidas depois.

O controle total das informações sobre seus projetos é uma tática comum da Vale para garantir seus objetivos.

Em julho, dias antes de desistir oficialmente da obra, a empresa firmou um acordo com o Ministério Público estadual para que uma auditoria independente avalie a verdadeira condição de todo o complexo Gongo Soco e de suas obras emergenciais. Com aval do MPMG, foi a própria mineradora quem escolheu a empresa norte-americana de engenharia Rizzo International Inc. para fazer a avaliação.

O controle total das informações sobre seus projetos é uma tática comum da Vale para garantir seus objetivos. “Somente a Vale possui todas as informações relevantes sobre suas operações – e ela mesma contrata empresas de engenharia que vão certificar tais operações”, me disse Raquel Giffoni, professora no Instituto Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora na área de mineração e sociedade.

O “automonitoramento” das estruturas, misturado a um discurso que transmite a ideia que desastres são inevitáveis – e, por isso, medidas excepcionais são necessárias – tornam-se ferramentas valiosas para empresas como a Vale. É assim que elas sufocam qualquer resistência local às iniciativas. “Moradores e agentes públicos bem informados sobre a mineração causariam muitos transtornos à empresa e limitariam suas decisões”, diz a pesquisadora.

Uma cidade marcada para morrer

Foi a própria Vale – com aval do MP – quem escolheu a empresa que iria fazer a auditoria do complexo de minas Gongo Soco.

Foto: Isis Medeiros/The Intercept Brasil

Vizinhança evacuada

Não foi a primeira vez que a Vale expulsou a população da área para uma obra emergencial. No dia 7 de fevereiro, poucas semanas após o rompimento da barragem em Brumadinho, a Vale acionou o protocolo de emergência no complexo Gongo Soco por conta de uma ameaça de rompimento da barragem. O pedido da mineradora para retirar os moradores da área se escorou no pânico criado por ela mesma e levou autoridades, como o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, a dizerem que outra catástrofe era inevitável. Um detalhe: segundo o Ministério Público de Minas Gerais, desde setembro de 2018 a empresa já tinha informações de que barragem não estava totalmente segura.

Quatro comunidades foram evacuadas às pressas, na madrugada do dia 8 de fevereiro: Piteiras, Socorro, Tabuleiro e Vila do Gongo. Pelo menos 458 pessoas foram removidas de seus lares e seguem proibidas de voltar desde então. Nos últimos meses, pipocaram centenas de tragédias pessoais por conta dessa crise humanitária: houve aumento do consumo de ansiolíticos e remédios tarja-preta, êxodo da população e até tentativas de suicídio, como me relataram os moradores quando visitei a região no começo de agosto.

Àquela altura, a população estava à mercê das decisões do poder público e da Vale. Para se ter ideia, a Defensoria Pública de Minas Gerais só entrou no caso no fim de junho, quando os desmandos sobre os moradores da zona rural próxima ao complexo de Gongo Soco já corriam soltos há meses.

Em abril, depois da evacuação, a Vale já tinha começado outra obra de emergência, entre os povoados de Socorro e Tabuleiro, a 6 km da barragem. A empresa não deu um prazo para o retorno dos moradores e diz que a intervenção, tida como uma estrutura temporária, será concluída em dezembro de 2019.

A construção levantará um muro de 35 metros de altura – o equivalente a um prédio de 13 andares – e 307 metros de extensão, ocupando uma área maior que 400 campos de futebol, entre Piteiras e Socorro. Sua a função é impedir que a lama de Gongo Soco atinja o centro de Barão e se espalhe por um raio que pode chegar a até 65 km de distância da mina.

Mas a estrutura está sendo erguida em um ponto que não protege imóveis, roças e nem mesmo o patrimônio histórico da cidade – há duas igrejas em estilo rococó construídas no século 18. Nem mesmo a festa da padroeira Nossa Senhora Mãe Augusta do Socorro, tradicionalmente celebrada na capela, pôde acontecer ali: em 2019, foi transferida para uma estrada de terra que liga Socorro a Barão de Cocais.

A vila evacuada virou um povoado fantasma sob constante vigilância da Vale, obrigada pela justiça a proteger as propriedades. Na prática, porém, casas foram saqueadas, animais abandonados e até moradores foram presos sob a acusação de invadir a vila – seja para retirar seus bens ou cuidar de suas roças –, segundo me contaram pessoas que viviam no local. Ao Intercept, a mineradora negou as acusações.

O mapa da mina

Desde o rompimento da barragem de Brumadinho, que matou mais de 250 pessoas em janeiro, a Vale corre contra o relógio. Sua produção despencou após desastre, com a paralisação de diversos complexos de mineração da empresa em Minas Gerais. Ao mesmo tempo, o preço do minério de ferro disparou. É do interesse da mineradora expandir suas atividades no estado.

A região atingida pelas obras de emergência coincide com duas áreas de mineração sobre as quais a Vale tem interesse: a mina Apolo, perto do canteiro em André do Mato Dentro, e a mina Baú, perto do muro de contenção. Por causa da interseção e da proximidade entre os projetos, moradores e ambientalistas acreditam que as duas obras favorecem a mineradora.

A suspeita de favorecimento a outros projetos da Vale era investigada pelo Ministério Público Federal em Minas Gerais desde junho. Em 21 de outubro, a denúncia foi repassada ao MP estadual, pois deve ser incluída na ação civil pública do MPMG, que acusa a mineradora de negligência com patrimônios históricos ameaçados pela lama.

A suspeita é que, com a região esvaziada, futuras intervenções podem ser realizadas sem tantas exigências burocráticas: sem animais e vegetação nativas, os impactos sobre o meio ambiente mudam completamente e as compensações necessárias para começar uma outra obra tornam-se mais simples.

Uma cidade marcada para morrer

A região atingida pelas obras coincide com duas áreas nas quais a Vale tem interesse: a mina Apolo, perto do canteiro em André do Mato Dentro, e a mina Baú, perto do muro de contenção. Foto: Isis Medeiros/The Intercept Brasil

O caso da mina Baú, em especial, revela o intrincado jogo de interesses envolvendo a mineradora e as supostas obras emergenciais. Hoje, a Vale arrenda o complexo da mina Baú para a MR Mineração Ltda. No pedido de licenciamento para a expansão dessa mina, feito pela “locatária” MR, consta a abertura de uma estrada para conectá-la ao complexo Gongo Soco, para o beneficiamento da produção. Por ali, é previsto um fluxo pesado: 440 toneladas de minério de ferro por hora, todos os dias, carregadas por uma frota de 25 caminhões em dois turnos de 8h de trabalho. O ponto planejado para a construção dessa estrada é o mesmo do canteiro das obras do muro em Socorro, que fez o favor de limpar todo o caminho.

Caso a ampliação seja aprovada pelo governo mineiro, todas as obras e benfeitorias feitas pela MR podem ser herdadas pela Vale, pois o contrato de arrendamento se encerra em 2027. Levando-se em conta o tempo útil de uma mina, que pode durar décadas, é um período relativamente curto. A Vale disse apenas que “a MR executa operação da Mina do Baú de acordo com Plano de Aproveitamento Econômico aprovado pela Agência Nacional de Mineração [ANM]”. Procuradas, tanto a ANM quanto a MR Mineração não responderam ao Intercept.

Além da coincidência entre o muro e a expansão da mina Baú, as atitudes da Vale sugerem que a empresa quer esconder que é a verdadeira dona da mina. Justo na época do início da construção do muro, entre os dias 5 e 9 de abril, a mineradora levantou sigilo sobre quatro lavras que integram o complexo do Baú. Procurada, a mineradora disse apenas que “exerceu seu direito [de levantar o sigilo], garantido pela atual legislação”.

A relação entre Vale e MR Mineração é obscura. O pedido de licenciamento para a expansão da mina Baú, por exemplo, foi feito por uma funcionária com uma conta de e-mail da Socoimex – antiga dona de Gongo Soco, comprada pela Vale em 2000. O contato oficial da MR Mineração registrado na Receita Federal também leva à Socoimex, empresa denunciada em 2015 ao MP estadual por ter feito acordos ilícitos com a secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais. Ao Intercept, a Vale nega qualquer relação com a Socoimex, apesar de ser sua dona. Os rastros aumentam a suspeita da mineradora servir de “laranja” para a Vale no projeto. Contatamos a empresa por meio desses e-mails para entender a relação entre MR e Socoimex. Elas não responderam.

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